Santo Oscar Romero (Monsenhor Romero): a história do padre assassinado enquanto celebrava a missa - Revista Camocim

















sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Santo Oscar Romero (Monsenhor Romero): a história do padre assassinado enquanto celebrava a missa




Por Paulo Emanuel Lopes*


Quando trabalhei na Agência de Informação Frei Tito para América Latina (Adital), agência de notícias sediada em Fortaleza que cobria, em português e espanhol, a igreja católica latino-americana (hoje incorporada ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, de Porto Alegre), tive contato com grandes nomes da Igreja em nosso continente. Pessoas que nos inspiram a sermos igreja acolhedora, aberta, dinâmica, próxima aos necessitados - a imagem de Jesus Cristo que eu trago em minha vida. 


A história de São Óscar Arnulfo Romero, mais conhecido como Monsenhor Romero, é talvez a que mais chama minha atenção - no dia 24 de março de 1980, ele foi assassinado a tiros no altar de uma igreja enquanto celebrava missa. Após sua morte teria salvo a vida de uma grávida que teve problemas no parto, Cecilia Flores, sendo por isso canonizado (ou seja, tornou-se oficialmente santo) pela Igreja Católica Apostólica Romana em 14 de outubro de 2018 (1).


A vida de Monsenhor Romero não foi muito diferente da de outros padres latino-americanos. Oriundo de família simples, nasceu no interior de El Salvador, pequeno país localizado na América Central marcado, ainda hoje, pela pobreza e violência. Teve uma carreira ascendente na Igreja até que, aos 59 anos, foi nomeado Arcebispo na capital de seu país, San Salvador. Oscar Romero não foi escolhido para o alto cargo por ser um sacerdote ligado à justiça e aos mais pobres, muito pelo contrário: era conservador e ligado às elites (2).  Mas é aqui, no topo de sua carreira eclesiástica, que começa seu martírio e grande exemplo cristão.


Em 1979 El Salvador estava vivendo um tenso clima político, que resultou em Golpe militar de Estado, quando uma “Junta” (governo) Civil-Militar depôs o então presidente, General Carlos Humberto Romero (3). Além da tensão com o exército, naquele momento o pequeno país centro-americano enfrentava milícias de extrema-esquerda e extrema-direita que disputavam o poder. Irrigadas de dinheiro pelos Estados Unidos (direita) e União Soviética (esquerda), El Salvador tornou-se palco de um sangrento capítulo da Guerra Fria, com salvadorenhos morrendo diariamente (3).


À medida que o povo do campo era assassinado pelas milícias e pelo próprio Governo, não demorou para a violência chegar aos sacerdotes católicos que se colocaram em favor dos camponeses. Em 12 de março de 1977, o jesuíta Rutilio Grande García dirigia seu Volkswagen branco por uma estrada com outras duas pessoas quando um grupo de atiradores os emboscou e metralhou - seus corpos ficaram com muitos furos de balas (4). Em 20 de janeiro de 1979 o padre Octavio Ortiz também foi assassinado junto com outros católicos, enquanto encontravam-se em um retiro espiritual no campo (5). A violência aviltante levou Monsenhor Romero a “romper” e começou a denunciar o governo.


Em 1979 Romero foi ao Vaticano encontrar-se com João Paulo II. Ele tentava mostrar ao Papa como havia uma perseguição orquestrada naquele país contra o clero católico, mas não foi bem recebido: João Paulo II acusou os padres assassinados de serem terroristas de esquerda, e tentou convencer Romero a fazer a paz com o governo. "Isso não é possível, porque esse governo está matando o povo, e A IGREJA TEM QUE ESTAR COM O POVO, E NÃO COM O GOVERNO", teria respondido ao Papa Monsenhor Romero (1), poucos meses antes de morrer. Seu assassino nunca foi encontrado, um forte indício do quanto a vida do Monsenhor importava pouco.


“O bispo salvadorenho, que foi elevado a Beato, viajou para Roma com as provas da perseguição da ditadura aos sacerdotes. 


– Eu já disse a vocês para não virem carregados com tantos papéis! Aqui não temos tempo de ler tanta coisa – diz o papa. Surpreso, com lágrimas nos olhos, o bispo de San Salvador abriu o envelope que guardava a foto do rosto destruído do padre Otavio Ortiz. –”Mataram-no com crueldade e até disseram que era de guerrilheiro…” Olhando a foto de soslaio, Karol Wojtyla perguntou: “E por acaso ele não o era?”.” (6)


Por ter abandonado o conforto e a segurança dos palácios episcopais e entregado-se, de peito aberto, a uma morte certa ao defender os oprimidos e denunciar a violência é que guardo uma admiração profunda por São Monsenhor Romero.


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*É Jornalista e Publicitário. Escreve às sextas.


(1) “Monsenhor Romero, o novo santo que chegou a ser considerado 'perigoso' pelo Vaticano” https://www.bbc.com/portuguese/geral-45855569 


(2) “Monsenhor Romero, mártir salvadorenho considerado ‘a voz dos sem voz’” https://www.istoedinheiro.com.br/monsenhor-romero-martir-salvadorenho-considerado-a-voz-dos-sem-voz/ 




(4) “Testemunho de um dos assassinos do padre Rutilio Grande, 'nos ordenaram eliminar o padre, porque ele era comunista, criava um levante entre os camponeses e falava mal do governo'http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596620-testemunho-de-um-dos-assassinos-do-padre-rutilio-grande-nos-deram-a-instrucao-de-eliminar-o-padre-porque-ele-era-comunista-criava-um-levante-entre-os-camponeses-e-falava-mal-do-governo 




(6) “O dia em que o Papa João Paulo II humilhou Monsenhor Romero no Vaticano” https://www.padrescasados.org/archives/59714/59714/

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