A ilustre senhora Ana Maria Veras usou as redes sociais para fazer um desabafo que mistura indignação, desencanto e uma certa descoberta tardia sobre como o poder público funciona quando decide não ouvir ninguém. O motivo foi a destruição do paisagismo na frente da sua casa e das pousadas da família, no Maceió, durante obras de calçamento do município.
“A vida toda ou uma parte significativa dela eu tentei fazer uma coisa bonita aqui no Maceió”, escreveu. Segundo ela, o cuidado com a frente do imóvel, o jardim organizado e o espaço “bonitinho e decente” foram simplesmente desmanchados, sem diálogo e sem aviso.
Ana Maria não é uma moradora qualquer. É ex-prefeita de Camocim, ex-primeira-dama, ex-secretária de Cultura e ex-cunhada da atual prefeita Betinha dos Aguiar. Ainda assim, nem o currículo nem o sobrenome impediram a chegada da máquina.
No texto, ela deixa claro que não enxerga o episódio como mero erro técnico. “Para resolverem uma situação política, resolveram destruir a minha frente”, afirmou, dizendo ter sido escolhida como exemplo. “Fui escolhida como boi de picanha, mostrando que podem fazer o que quiser, onde quiser e com quem quiser.”
Ela não cita nomes, mas também não deixa dúvidas. “Sei que o vereador aqui votado não tem peso, mas devia ter vergonha da desgraça que fez aqui no meu estabelecimento e na minha casa.” Em Maceió, todos sabem que a obra passa pela Secretaria de Infraestrutura, comandada por Cleile Júnior, vereador eleito e hoje secretário da pasta.
O tom do desabafo sobe quando a ex-prefeita mostra seu total desencanto com a política local. “Que merda de política é esta, onde até vaca tem título de eleitor”, escreveu, afirmando que Camocim caminha “a passos largos para se transformar numa terra sem dono, sem lei”.
“É tudo uma questão de organização e boa vontade. Maceió, pena de ti e de mim que apostei muito”, lamentou, antes de concluir com uma frase que resume o sentimento: “Vou só desmanchar a lagoa da minha porta. Vida que segue.”
Desculpe-me. dona Ana, mas a ironia do episódio é difícil de ignorar. Práticas antigas, já conhecidas de moradores comuns, agora alcançam alguém que já esteve no topo do poder municipal. Desta vez, a retroescavadeira não reconheceu sobrenome, cargo passado nem história política.
Carlos Jardel


