Barulho de ar-condicionado vira pauta nacional enquanto o Brasil apodrece nas celas - Revista Camocim

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Barulho de ar-condicionado vira pauta nacional enquanto o Brasil apodrece nas celas



O Brasil  Superlota presídios,naturaliza tortura psicológica diária contra pobres e pretos, ignora facções mandando de dentro das cadeias e aceita gente dormindo em pé dentro de celas abafadas. Mas basta o hóspede ser ilustre, ex-presidente e autoproclamado “mito”, para o ruído de um ar-condicionado virar assunto de Estado.


A defesa de Jair Bolsonaro resolveu inovar no cardápio de reclamações. Agora o problema não é a Justiça, nem as provas, nem os processos. É o barulho do ar-condicionado. Segundo os advogados, o som "compromete o repouso" do ex-presidente, afeta sua saúde física e psicológica e exige providências urgentes, quiçá isolamento acústico ou mudança do equipamento.


É comovente. Quase poético. Um grito sensível vindo de quem passou quatro anos debochando de mortos, ridicularizando doentes, desprezando a ciência e tratando a dor alheia como “mimimi”.


Enquanto isso, nas penitenciárias reais do Brasil, aquelas onde não entra advogado estrelado nem pedido formal ao STF, o que compromete o repouso não é ar-condicionado, mas gritos, ratos, calor insuportável, fome, doenças, esgoto a céu aberto e o medo constante de morrer. Ali, ninguém pede isolamento acústico. Pede-se água, colchão, atendimento médico. E não vem.


Bolsonaro, que sempre defendeu cadeia dura, bandido “tratado como bandido” e direitos humanos “para humanos direitos”, agora descobre que prisão incomoda. Descobre que barulho irrita. Descobre que o confinamento cobra seu preço psicológico. Descobre, enfim, aquilo que milhões de brasileiros conhecem desde sempre, só que sem advogado, sem despacho judicial, sem nota oficial.


O mais simbólico não é o pedido em si. É o sistema responder. É o ministro do STF solicitar esclarecimentos formais à Polícia Federal. Cinco dias. Processo. Estado em movimento. Tudo funcionando para avaliar se o ruído está acima do aceitável para um preso específico.


Quantos pedidos semelhantes feitos por presos comuns chegaram ao Supremo? Quantos tiveram despacho? Quantos sequer foram lidos?


A verdade é simples e incômoda há presos e há presos. Há os invisíveis, tratados como entulho social. E há os poderosos, para quem até o silêncio é direito fundamental.


Se há algo de perturbador nessa história, não é o barulho do ar-condicionado. É o barulho do privilégio. É o som ensurdecedor de um país que finge igualdade perante a lei, mas se ajoelha quando o réu tem sobrenome famoso, patente política ou seguidores barulhentos nas redes.


Bolsonaro não está sendo perseguido. Está sendo tratado melhor do que quase qualquer preso brasileiro jamais sonhou. E, ainda assim, reclama.


Talvez o problema nunca tenha sido o ar-condicionado. Talvez seja o incômodo de finalmente sentir, ainda que de forma muito atenuada, o peso das regras que ele sempre quis impor aos outros.


Carlos Jardel