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segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Reportagem denuncia casos de tortura, agressões e assassinato em comunidades terapêuticas


Comunidades terapêuticas são locais que, em teoria, deveriam auxiliar no acolhimento de dependentes químicos No entanto, como revelou o "Fantástico" nesse domingo (26), alguns estabelecimentos da Grande São Paulo estão envolvidos em denúncias de tortura, de agressões e até mesmo de assassinato.


O que deveriam ser casas de apoio, são, na verdade, equipamentos semelhantes ou piores que aos antigos manicômios e sanatórios — proibidos por lei desde 2001. Muitas delas nem mesmo são regularizadas.  


Nas imagens divulgadas pela reportagem, é possível observar um paciente de uma das unidades da Comunidade Terapêutica Kairós, com mãos e pernas amarrados, sendo espancado por grupo de pessoas, que desfere socos, chutes e pauladas, enquanto é atacado por um cachorro — incitado por alguns dos agressores. A vítima seria um comerciante de 42 anos que faz uso abusivo de álcool. Ele é arrastado pelas pessoas até ao local.  


Outra paciente de uma das unidades femininas da mesma rede, localizada em Juquitiba, contou ao "Fantástico" sobre os momentos vividos no local.


Eu estava com dependência de medicação, e a minha prima procurou uma pela internet, porque a Kairós é realmente muito bonita pelas fotos”, relatou a mulher, que não quis se identificar. 


Entre dezembro de 2022 e março deste ano, ela ficou internada na comunidade contra a própria vontade. “Do portão para dentro, as coisas mudam. Lá é um sistema de cadeia”, relembra. 


Alguns desses equipamentos terapêuticos são entidades privadas que, muitas vezes, cobram pelo serviço de acolhimento aos dependentes. 


Na unidade onde foi enclausurada, a mulher contou que havia um sistema de castigos. Um deles era o local conhecido como "buraco", que servia para "deixar as meninas de castigo". Outro método seria o chamado "parede", em que os pacientes são obrigados a ficar "o tempo todo olhando para a parede", segundo relatou ao "Fantástico". 


Além das violências físicas, os internos ainda são submetidos a abusos psicológicos constantes, conforme a antiga paciente. “Dentro da Kairós, ou você entra no sistema, ou você vai tomar gogó”. O “gogó”, segundo explica a reportagem, é um golpe conhecido com mata-leão. 


“Geralmente, eles [os gogós] são dados na frente de todo mundo, que é para todo mundo ver. A gente não sente dor por que apaga”, detalhou. 


A Kairós feminina, onde a mulher diz terem sido agredida, segue aberta, em processo de regularização. A dona do local se recusou a se posicionar. Já em relação ao espancamento do comerciante, o advogado do dono da mesma rede declarou que os envolvidos foram identificados, demitidos e os nomes deles repassados para as autoridades.


Assassinato de paciente


Dependente químico, o antigo paciente Onésio Ribeiro Pereira, de 38 anos, chegou a ser internado três vezes em comunidades terapêuticas. A última delas, contra a vontade dele, foi em uma das unidades da Kairós, onde supostamente foi assassinado. 


"[Recebi uma ligação] onde meu irmão estava em uma camisa de força. Falaram: 'olha, seu irmão tentou fugir'. Ai, meu irmão chorava muito e falava: 'me perdoa. Eu só comentei que queria fugir'. Passaram de duas a três horas, eu recebi outra ligação dizendo que meu irmão tinha passado mal e que estava sendo socorrido para o hospital", contou a irmã do homem, que não quis ser identificada. 


O diretor do hospital me chamou em uma sala e disse: 'olha, seu irmão chegou aqui já morto. O seu irmão foi assassinado, o seu irmão não passou mal. Eles bateram bastante. Têm marcas nos braços, nas pernas, no pescoço, no peito.'" 

     

"Barras de ferro, pés de mesa, tacos de sinuca. Ele ficou de 40 a 50 minutos sofrendo um espancamento com esses objetos em uma camisa de força", detalhou o delegado da Polícia Civil, Júlio Teixeira, responsável por investigar o caso. 


O dono da Kairós masculina, quatro monitores e um enfermeiros foram presos pelo homicídio. 


'Depósitos de seres humanos'


Segundo a lei, essas comunidades devem somente acolher pacientes que voluntariamente desejam integrar as unidades. No entanto, conforme os relatos de ex-pacientes à reportagem, algumas delas, inclusive as não regularizadas, internam pessoas contra a vontade delas. 


São verdadeiros depósitos de seres humanos. Sem nenhum cuidado, nenhuma assistência específica, sem higiene. São locais onde há violações severas de direitos humanos."

ALEXANDRE ACERBI

Promotor de Justiça


"Não podemos compactuar que esses desserviços, que amarram pessoas, que agridem pessoas, possam ser chamadas de comunidades terapêuticas, porque elas não são. Um local que deveria atender as pessoas voluntariamente não deveria ter grade, muro alto", disse o diretor-executivo da Federação Brasileira das Comunidades Terapêutica, Lucas Roncati. 


No Brasil, existe a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dispositivo da saúde pública instituído para acolher pessoas com sofrimento mental e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 


Diário do Nordeste