Aprendi na escola que o sufixo “fobia” designava medo que uma pessoa tem de algo, por exemplo: aracnofobia é o medo de aranha, necrofobia é o medo de cadáveres. No entanto, depois que passei a morar fora do Ceará passei a entender outra “fobia”, que é: a xenofobia ao pé da letra é o medo àquilo que etimologicamente é diferente de mim. Ou seja, o medo de outras culturas, outros povos, medo de tudo aquilo que está fora da realidade no qual está inserido.
Entretanto, a priori para mim não faz sentido chamar de “xenofobia” o que na realidade é preconceito. No Brasil podemos usar como exemplo as situações xenófobas em relação ao Sudeste com os nordestinos. Admito não me lembro de ter sofrido nenhuma declaração preconceituosa pelo fato de eu ser cearense e morar fora da minha terra de origem, mas isso não significa que algumas pessoas (até mesmo sem querer) deixem escapar algum comentário maldoso com a desculpa de ser uma brincadeira inocente.
Já ouvi expressões como: “você nem parece que é do Ceará” ou “cadê a cabeça chata?” ou então “você é cearense? Mas você tem pescoço?”; normalmente uma risada irônica acompanha a frase de duplo sentido. Como eu sou do tipo que “perde o amigo, mas não perde a piada” sempre tenho respostas espirituosas e tão ácidas quanto às de quem proferiu.
Nesse ano fiquei muito triste quando eu soube que um cearense que veio visitar a cidade de Goiânia sofrera ofensas desse calibre, e pior, por alguém que eu conheço e no seminário onde eu morei por dois anos. Queria ver se teria coragem de debochar do meu sotaque na minha frente ou falar que fugi da fome.
Lembro que no ano de 2014, após o segundo turno das eleições para a presidência do Brasil; li e vi inúmeros insultos e absurdos proferidos contra os nordestinos. Muitos desses pediam inclusive a separação do Nordeste do resto do Brasil. A priori considerei um absurdo; somos todos iguais e como povo brasileiro, carregamos a mesma marca histórica de colonização e exploração, eu acredito que o mundo não precisa de mais uma porção de terra para chamar de país.
Se bem que hoje em dia (pouco mais de um ano depois das eleições), acredito que se houvesse separação do Nordeste do resto; o Brasil sairia perdendo em termos de cultura, pioneirismo, coragem, inteligência e sabedoria. Não esquecendo que o Brasil começou oficialmente em Porto Seguro (Bahia) por Pedro Alvares Cabral, mas também existe a teoria que teria começado no litoral que hoje é do Ceará pelo espanhol Vicente Pinzón.
Mas, suponhamos que essa separação acontecesse realmente, tenho certeza que o país vizinho chamado “Brasil” seria obrigado a pagar altas taxas para passarem férias nas belas praias do nosso novo país: Nordeste. Ora, enquanto eles teriam apenas as praias da cidade do Rio de Janeiro para se “orgulharem”; o nosso novo país: o Nordeste traz consigo os lindos litorais da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, isso sem contar os lençóis maranhenses.
Comecemos pelas matérias primas como carnaúba, cacau, cana de açúcar, sisal, sal, algodão que sem o Nordeste não teria como fazer muita coisa. Precisariam pagar imposto pelo material importado, ou seja, sairia mais caro.
Eles teriam que estudar os nossos escritores como Castro Alves, José de Alencar, Gonçalves Dias, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Patativa do Assaré, Ruy Barbosa, Paulo Freire, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Aluísio de Azevedo, Adolfo Caminha, Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Manuel Bandeira; enquanto eles teriam apenas os “clássicos” de Andressa Urach e Carol Pacheco (essa mais conhecida como Bruna Surfistinha) ou os rasos escritos que Augusto Cury consegue publicar.
Na área da música, enquanto nós por sermos nordestinos temos a nosso favor Fagner, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, Alceu Valença, Belchior, Zeca Baleiro, Geraldo Azevedo, Amelinha, João Gilberto, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Lenine, Daniela Mercury, Roberta Miranda, Alcione, Raul Seixas, Pitty, Roberta Sá e família Caymmi inteira, melhor parar por aqui porque o país vizinho teria quem mesmo? Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, Anitta, Restart.
Nas artes temos aqui do Nordeste: Glauber Rocha (um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos), Karim Aïnouz (cineasta cearense), Wagner Moura, Lázaro Ramos, Florinda Bolkan (cearense que se tornou diva do cinema na Itália), Gero Camilo, Luiza Tomé, José Wilker, Arlete Salles, Vladimir Brichta. Da nova geração temos Irhandir Santos, Titina Medeiros, Jesuíta Barbosa, Lucy Ramos, Maeve Jinkins entre outros. Claro que vez por outra aparece uma Carla Perez, mas acontece nas melhores famílias.
E com certeza a nação do Nordeste seria bem mais feliz que o país ao lado; porque temos ninguém menos que Chico Anysio como humorista maior (está no Guiness criou mais de 200 personagens), Renato Aragão, Falcão, Tom Cavalcante, Ceará, Tirulipa (todos cearenses). E se criticam o fato do também humorista cearense Tiririca ter sido eleito como o deputado federal mais votado da história; deixemos claro que também os mesmos eleitores desse estado chamado São Paulo elegeram também como deputados Celso Russomano, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, sem comentários.
Sem contar que só no Nordeste é que temos as maiores festas culturais preservadas. O carnaval de Recife e blocos de rua (Galo da Madrugada o maior do mundo), Olinda e seus famosos bonecos, São Luís e a tradição dos fofões, Salvador e os trios elétricos, no Ceará com os carnavais na praia e na serra. E as festas juninas que movimentam os nove estados nordestinos o ano inteiro. Ou seja, caso houvesse separação gostaria de saber honestamente quem realmente sairia perdendo?
Nós do Nordeste ou o outro país que quis separar-se da gente?
Por Júnior Santiago - camocinense, graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula.

