Estamos criando filhos ou pequenos negociadores? - Revista Camocim

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Estamos criando filhos ou pequenos negociadores?

 


Immanuel Kant morreu em 1804. Mesmo assim, uma reflexão dele sobre educação continua incomodando, principalmente nos dias de hoje.


O filósofo dizia que, se uma criança é castigada quando faz algo errado e recompensada quando faz algo certo, ela pode aprender uma coisa perigosa, que é fazer o bem apenas quando existe alguma vantagem.


A criança arruma o quarto porque vai ganhar presente. Estuda porque vai ganhar dinheiro. Obedece porque quer celular. Ajuda porque espera alguma coisa em troca.


E, sem perceber, os adultos podem estar ensinando uma lógica simples: “O que eu ganho com isso?”


Kant fazia uma distinção importante. Uma coisa é obedecer. Outra é compreender.


Obedecer porque alguém está olhando é fácil. Difícil é fazer o certo quando ninguém está vendo.


É aí que entra o caráter.


O mundo real não funciona como uma casa onde toda boa atitude recebe prêmio e todo erro recebe castigo. Há gente que faz o bem e não recebe reconhecimento. Há gente que age errado e, aparentemente, não sofre consequência nenhuma.


Se a pessoa foi educada apenas para buscar recompensa e fugir de punição, o que acontece quando não existe mais ninguém fiscalizando?


É justamente aí que a reflexão de Kant continua atual.


Educar não deveria ser apenas ensinar uma criança a se comportar.


Deveria ser ensinar uma criança a compreender.


Compreender por que deve respeitar. Por que deve dizer a verdade. Por que deve ajudar. Por que precisa reconhecer quando erra.


Porque chega um momento em que pai e mãe não estão mais por perto.


A professora não está olhando.


O chefe não está olhando.


A sociedade não está olhando.


E aí sobra somente uma coisa: aquilo que foi construído dentro da pessoa.


Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem educa.


Não criar filhos que fazem o certo porque têm medo.


Nem porque ganharão alguma coisa.


Mas porque aprenderam que fazer o certo continua sendo certo, mesmo quando não há prêmio nenhum esperando por eles.


Carlos Jardel