O enfrentamento às facções criminosas no Ceará tem se apoiado cada vez mais em estratégias de inteligência e integração entre as forças de segurança. Em entrevista ao Diário do Nordeste, o delegado-geral da Polícia Civil do Estado do Ceará, Márcio Gutierrez, destacou o uso da chamada “inteligência financeira” como ferramenta essencial para enfraquecer organizações criminosas.
Segundo a Polícia Civil, cerca de R$ 2 bilhões em patrimônio com origem suspeita estão atualmente sob análise. A medida faz parte de um conjunto de ações voltadas para rastrear recursos e combater a lavagem de dinheiro, prática considerada central para a manutenção das atividades ilícitas.
“O crime organizado se alimenta dos recursos financeiros. Temos investido na nossa capacidade de investigar lavagem de dinheiro e analisar informações para ampliar a asfixia dessas facções”, afirmou o delegado.
Além disso, o número de capturas de integrantes de grupos criminosos praticamente dobrou na comparação entre 2024 e 2025, refletindo o reforço nas operações policiais.
Queda nos índices de violência
O Ceará caminha para o quinto mês consecutivo de redução nos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs). Entre os dias 1º e 20 de abril, foram registradas 69 mortes violentas no estado.
Para Gutierrez, a redução não é pontual, mas resultado de um conjunto de indicadores positivos. “Temos conseguido fazer a contenção da violência. Os dados mostram que estamos no caminho certo, embora ainda haja necessidade de avançar”, avaliou.
Áreas de maior atenção
Apesar da queda geral, algumas regiões seguem como foco das ações policiais. Em Fortaleza, a área da Grande Messejana ainda preocupa devido a disputas territoriais entre facções.
A Área Integrada de Segurança 16 (AIS 16), que inclui bairros como Ancuri, Jangurussu e Conjunto Palmeiras, apresenta redução nos índices, mas em ritmo mais lento. Segundo o delegado, o efetivo foi reforçado na região para conter os conflitos e ampliar as capturas.
No interior sul do estado, também houve intensificação das investigações para aumentar a capacidade operacional.
Absolvições e desafios jurídicos
Outro ponto abordado foi a recente série de absolvições de acusados de integrar facções criminosas, incluindo membros ligados ao Comando Vermelho.
Decisões do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará anularam provas obtidas a partir de celulares, sob o entendimento de que houve acesso sem autorização judicial e falhas na cadeia de custódia.
Para Gutierrez, esse tipo de decisão gera preocupação. Ele afirma que a Polícia Civil atua com base na legislação e nos protocolos vigentes, mas mudanças posteriores de entendimento jurídico podem comprometer investigações longas e custosas.
“Uma investigação que durou anos pode ser colocada em xeque por nulidades. Isso impacta diretamente o trabalho policial e o investimento público”, pontuou.
Estratégia contínua
Mesmo diante dos desafios, a Segurança Pública do Ceará segue apostando na integração entre órgãos e no uso de tecnologia e inteligência para reduzir a criminalidade e conter o avanço das facções no estado.
Carlos Jardel
Via DN

