O Domingo de Ramos começa com festa, com ramos nas mãos, canto, clima de celebração. Mas a liturgia, especialmente na tradição mais antiga da Igreja, nunca foi só isso. Ela coloca, no mesmo dia, a aclamação e a Paixão. Ou seja, não há espaço para ilusão. A fé começa no entusiasmo, mas é provada na cruz.
O problema é que, hoje, isso foi diluído! A liturgia vem sendo romantizada, transformada em cenário bonito, gesto simbólico vazio e cumprimento de preceito. Vai-se à igreja, levanta-se o ramo, tira-se foto, cumpre-se a “obrigação” e pronto. A força crítica da mensagem desaparece. O que era para incomodar, virou conforto. O que era confronto com a realidade, virou tradição sem consequência.
E isso tem efeito direto na vida social., porque uma fé reduzida a rito não transforma nada. Não muda estruturas, não questiona injustiças, não provoca consciência. Cria, no máximo, uma sensação de dever cumprido. É uma espiritualidade que não atravessa a porta da igreja. Fica ali, contida, domesticada, sem impacto no mundo real.
O contraste com o sentido original do Domingo de Ramos é gritante. A mesma multidão que aclama é a que condena dias depois. A liturgia mostra de forma clara a incoerência humana, inclusive a nossa. Mas, quando tudo vira apenas encenação, essa denúncia desaparece. Ninguém se sente implicado. Ninguém se vê na multidão que muda de lado conforme a conveniência.
E talvez esse seja o ponto mais incômodo, pois a fé deixou de ser critério de vida para virar identidade cultural. Algo que se carrega, mas não necessariamente se vive.
O Domingo de Ramos não é sobre carregar folhas nas mãos. É sobre assumir uma posição quando o custo aparece. Sem isso, a liturgia vira só estética. E uma fé estética não muda ninguém, muito menos a sociedade.
Carlos Jardel

