O discurso do vereador Kléber Veras, líder do governo Betinha na Câmara de Camocim, foi um daqueles momentos em que a gente precisa esfregar os olhos para ter certeza de que ouviu direito.
Basicamente ele subiu à tribuna para dizer que não houve necessidade de questionar nada nas gestões passadas da ex-prefeita Monica e da atual, Betinha, porque as contas foram aprovadas pelo TCE. Traduzindo do governês para o português claro, se o tribunal não apontou problema, então está tudo perfeito e ninguém precisa criticar.
É sério isso?
Então agora o papel do vereador virou esperar o tribunal mandar um bilhetinho dizendo que pode fiscalizar?. Se o tribunal não reclama, a Câmara bate palma. Se a conta foi aprovada, fecha os olhos. Se não tem carimbo de irregularidade, não existe problema?
É uma concepção tão pequena do papel do Legislativo que dá até constrangimento.
Vereador, conta aprovada não é atestado de perfeição. Não mede qualidade de merenda, não mede fila de posto de saúde, não mede estrada esburacada, não mede contrato mal explicado, não mede prioridade equivocada. Mede formalidade contábil.
Mas no raciocínio apresentado pelo Kléber, se passou pelo tribunal, acabou o debate. Fiscalização terceirizada. Consciência alugada. Independência protocolada.
E não para por aí.
Ele ainda disse que faz denúncia quando acha motivo. Ou seja, o critério é subjetivo. Se ele acha que não tem motivo, não existe motivo. Se ele acha que está tudo bem, está tudo bem. Pronto, resolvido.
Que conceito confortável de mandato, né?
O aliado da prefeita também fez questão de minimizar a importância da fala de outros vereadores, dizendo que a palavra de alguns não tem importância nenhuma para ele. Curioso para quem, na mesma fala, pede respeito democrático. Pergunto: Respeito seletivo é novidade na teoria política?
E o ponto mais simbólico é esse discurso quase indignado contra a ideia de que vereador precisa denunciar. Como se fiscalizar fosse um excesso. Como se questionar fosse birra. Como se cobrar fosse implicância.
Não, vereador, o estranho não é denunciar. O estranho é passar anos sem encontrar absolutamente nada para questionar.
Nenhum contrato para analisar com lupa
Nenhuma obra para cobrar prazo
Nenhum gasto para pedir detalhamento
Nenhuma política pública para sugerir ajuste
Nada. Zero.
Ou a gestão é milagrosa ou a fiscalização é ornamental.
O Legislativo não foi criado para ser departamento de validação emocional do Executivo. Não foi eleito para defender governo. Foi eleito para defender população.
Quando um líder de governo sobe à tribuna praticamente dizendo que não havia o que criticar porque o tribunal aprovou as contas, ele não está defendendo a gestão. Está confessando a própria irrelevância fiscalizatória.
Democracia não funciona com unanimidade artificial. Câmara que não questiona vira plateia. E plateia não fiscaliza ninguém.
Se está tudo perfeito, parabéns, Camocim descobriu a primeira administração imaculada da história.
Ou talvez só tenha descoberto uma base que confundiu lealdade com silêncio. E isso, sim, é preocupante.
Carlos Jardel

