Ah pronto. Agora o problema do Brasil não é salário baixo, não é patrão explorador, não é escala 6x1, não é empresa que paga uma mixaria e exige “experiência, curso, carro próprio e disponibilidade total”. O problema é o Bolsa Família! Me poupe, né, senhor dono da razão alheia.
Assista o vídeo. A seguir nosso breve comentário.
Entao, caro leitor e cara leitora do Revista Camocim, segundo o administrador da página Emprego Sobral, o benefício estaria “desestimulando” o trabalho. Claro. Porque receber um valor básico pra não passar fome é muito mais vantajoso do que ganhar salário mínimo pra trabalhar igual condenado e ainda ouvir humilhação.
Vamos combinar uma coisa?
Se uma pessoa prefere manter o benefício do que aceitar a vaga oferecida, talvez o problema não seja o benefício. Talvez o problema seja a vaga. Salário baixo. Sem estabilidade. Pressão absurda. Patrão que acha que está fazendo favor. E ainda querem que o trabalhador agradeça.
Tem empresa que quer funcionário disponível 24h, sorrindo, rendendo 200%, mas pagando como se fosse estágio de 2008. Aí quando ninguém se interessa, a culpa vira do pobre que não quer “trabalhar”.
“Ah, mas ela perguntou se ia assinar a carteira.”
E tá errada? Querem o quê? Que a pessoa trabalhe informal pra não ter direito nenhum? Depois chamam isso de “oportunidade”.
O que desestimula o trabalho não é o Bolsa Família. O que desestimula é salário que não paga nem o aluguel, ambiente tóxico, falta de direitos, demissão sem explicação, e empresário que reclama de quem quer carteira assinada.
Engraçado que quando é incentivo fiscal pra empresa, ninguém diz que “desestimula o empreendedorismo”. Quando é linha de crédito subsidiada, ninguém chama de esmola. Agora quando é dinheiro pra pobre comer, vira o fim do mundo.
A verdade dói.
Tem patrão que não quer funcionário. Quer súdito.
Se a vaga fosse boa, com salário digno, benefício real e respeito, teria fila. O mercado é simples: oferta ruim não atrai ninguém.
Antes de culpar o programa social, talvez fosse interessante perguntar, tipo, empresa paga quanto? Tem plano de crescimento? Ou é só mais uma querendo mão de obra barata e silenciosa?
Ah, então vamos falar sério. O discurso é sempre o mesmo "Ninguém quer trabalhar". Mas nunca é, “será que eu estou oferecendo algo decente?”
Se a pessoa tem medo de assinar carteira porque pode perder o benefício, o problema não é o programa. É o emprego que não dá segurança nenhuma.
Porque quando o salário é digno, quando tem estabilidade, quando o patrão cumpre direitos, ninguém prefere benefício social. Ninguém sonha em viver de programa assistencial. As pessoas querem renda estável, querem crescer.
Agora, vamos falar do elefante na sala?
Parte dos empregadores quer pagar mixaria, exigir experiência absurda, cobrar metas irreais, impor escala puxada, oferecer zero estabilidade. E ainda querem gratidão!?
Tem empresa que trata funcionário como descartável. Se adoecer, troca. Se reclamar, demite. Se exigir direito, “tem uma fila querendo”. Aí quando a fila não aparece, o problema vira o pobre.
É muito cômodo culpar o Bolsa Família. Difícil é admitir que talvez a vaga não seja atrativa. Difícil é reconhecer que o mercado precarizou tanto que o trabalhador faz conta antes de aceitar.
Emprego bom não disputa com benefício social. Emprego ruim disputa, e perde. E quando perde, a culpa nunca é do patrão, né?
Porque para alguns, o trabalhador ideal é aquele que aceita qualquer coisa, por qualquer valor, calado.
Não, senhor Humberto, o problema não é o benefício.
O problema é o modelo de empresário que quer mão de obra barata e ainda acha que está fazendo caridade.
Se a proposta fosse boa, não precisava culpar ninguém. Teria gente querendo.
Simples assim.
E ainda tem gente que defende o patrão.
Sempre aparece alguém dizendo “coitado do patrão”, “é difícil empreender no Brasil”, “ele gera emprego”.
Sim, empreender no Brasil é difícil. Mas vamos parar com essa romantização automática.
Ninguém é herói só porque abriu um CNPJ.
Se a empresa paga salário mínimo espremido, não oferece estabilidade, exige produção como se fosse multinacional e trata funcionário como descartável, não dá pra colocar auréola na cabeça do dono e crucificar o trabalhador.
Tem gente que defende patrão como se fosse parente. Como se reclamar de salário baixo fosse pecado.
A pergunta simples é: Se o emprego fosse bom, estaria faltando gente?
Humberto, emprego digno não disputa com programa social. Emprego digno atrai.
O que muita gente chama de “ninguém quer trabalhar” na verdade é “ninguém quer ser explorado”.
E vamos combinar: parte de alguns empregadores quer funcionário 100% disponível, multitarefa, sorrindo, fazendo hora extra “na parceria”, mas pagando como se estivesse fazendo favor.
Aí quando o trabalhador questiona carteira assinada, direito, salário, vira “preguiçoso”.
Curioso como a indignação nunca é contra a jornada pesada, pressão abusiva, salário apertado ou demissão sem aviso.
A indignação é sempre contra quem está na base.
Defender empresário não é errado.
Errado é defender precarização como se fosse virtude.
No fim das contas, quem vive de salário sabe que o problema nunca foi o benefício mínimo para sobreviver.
O problema é quando o trabalho não garante viver com dignidade.
Carlos Jardel

