Algumas memórias dos anos 2000 e do rock em Camocim-CE – Parte 3 - Revista Camocim

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Algumas memórias dos anos 2000 e do rock em Camocim-CE – Parte 3

 


Por Santiago Pontes


O dia 24 de julho de 2009 é uma data que permanecerá para sempre registrada na lembrança dos apreciadores do rock em Camocim/CE, pois foi quando a banda Charlie Brown Jr. se apresentou em um grande espetáculo na Praça do Odus, localizada na Avenida Beira-Mar. A apresentação integrou um evento promovido pelo Governo do Estado do Ceará, por meio de um programa intitulado “Férias no Ceará”, cujo propósito era levar nomes consagrados da música nacional tanto às cidades do interior quanto à capital, por meio de shows gratuitos, atraindo um público expressivo.


Em nosso município, por exemplo, passaram pelo palco artistas como Vanessa da Mata, Jota Quest, Kid Abelha e Lulu Santos, ao menos pelo que me recordo agora. Em certa ocasião, o então governador Cid Gomes, que estava de passagem por Camocim — talvez para alguma inauguração —, ofereceu ao público a chance de escolher a próxima atração musical que se apresentaria por aqui. A disputa foi entre Pitty e Aviões do Forró, e o resultado (que dispensa comentários) ainda me entristece até hoje, já que nunca tive a oportunidade de assistir a um show da rockeira ruiva.


O fato é que uma iniciativa dessa magnitude atrai pessoas de diferentes idades, gerações e preferências musicais. Nem todos os presentes eram, de fato, fãs, mas sabiam que uma ocasião como aquela dificilmente se repetiria, sobretudo de forma gratuita.


Naquele período, eu vivia o auge dos meus 16 anos, uma fase bastante ativa, em que a banda Terminal R se firmava na cena rock da cidade, já com algumas apresentações promovidas pelo poder público e em eventos privados, além de participações constantes no Camocim Rock Fest, realizado anualmente. Esse movimento acabou dando origem a outro festival, o “Halloween Rock”, cuja primeira edição ocorreu no Comercial Clube, no mês de outubro, em alusão ao Dia das Bruxas — mais um espaço de encontro para bandas locais e da região divulgarem seu som.


Durante essa fase da adolescência, começaram a aflorar em mim sentimentos típicos da idade, e o amor (ou a paixão) tomou conta do meu peito de forma avassaladora. Até aqui, a narrativa segue de maneira linear. Seria natural imaginar, diante de todo esse contexto, que a musa inspiradora também fosse admiradora do rock, mas não foi o que aconteceu. Apaixonei-me por uma pagodeira e, antes que você, leitor, questione o que o Charlie Brown Jr. tem a ver com isso, peço que acompanhe o desenrolar da história para entender como tudo se conecta. A verdade é que me permiti experimentar um universo novo, embora sem grande identificação, já que o rock sempre me pareceu mais do que um simples gênero musical: era um verdadeiro modo de vida.


Na semana do show, lembro-me de mal conseguir comer ou dormir direito, imaginando como seria ver Chorão, vocalista da banda, tão de perto. Na Terminal R, fazíamos inúmeros covers do Charlie Brown Jr., portanto não havia como aquele momento não ser de extrema relevância para nós. Durante os ensaios, passamos a incluir cada vez mais músicas no repertório, algumas com nível de dificuldade elevado, o que nos obrigava a recomeçar diversas vezes — como nas canções “Rubão” e “Eu Protesto”. Apesar da pouca experiência, o empenho fazia com que os integrantes assimilassem rapidamente os acordes e ritmos, facilitando bastante o trabalho do vocalista.


No dia da apresentação, recordo-me de chegar à Beira-Mar e, logo em seguida, a namorada me conduzir para a parte de trás do espaço. Fiquei um pouco desconfiado, mas acompanhei, afinal ainda acontecia o show da banda de abertura. Minha ansiedade começou a aumentar à medida que essa banda encerrou sua participação e, no intervalo, os roadies ajustavam tudo com rapidez. Foi então que percebi que precisava tomar uma atitude e sugeri que fôssemos para a frente, pois queria ver os caras tocando de perto. A resposta negativa, porém, levou-me a tomar uma decisão drástica: disse que iria comprar refrigerante (na época, eu não bebia, por isso me lembro de tantos detalhes) — e nunca mais voltei.


Não retornei porque fiquei praticamente colado ao palco e, quando Chorão surgiu ao lado dos demais integrantes, simplesmente me desliguei do mundo exterior. Cantei do começo ao fim. Infelizmente, não consegui pegar nenhuma baqueta, toalha ou palheta, mas isso pouco importou. Cada segundo foi intensamente vivido.


Ao final, já no caminho de casa, lembro-me de ouvir alguns mais velhos comentando: “Meu Deus, esse homem fala palavrão demais, minha Nossa Senhora, esculhambou o povo e eles ainda gostaram… vai entender esses jovens.” Hoje, resta a lembrança de uma noite inesquecível, em que uma das maiores bandas do cenário nacional marcou presença na pacata terra do pote e do coró.


Referências:


Matéria sobre a show: https://www.camocimonline.com/2009/07/hoje-tem-charlie-brown-jr.html 


Vídeo amador do show: https://youtu.be/EkI6RPRHhSw?si=iWdFajtCUX682EAK 


Vídeo gravado direto do público: https://youtu.be/vc7sYrXfpBY?si=mUOVFCuVlPaM4_Lp