Uma reflexão antes do Natal - Revista Camocim

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Uma reflexão antes do Natal




Por Antonio Salustiano Filho (Tonhão)*


Estamos nas proximidades de mais um Natal, a festa da natividade do Senhor Jesus, o Deus que se fez homem na criança frágil que nasceu na periferia do Império Romano, na longínqua cidadezinha de Belém (ou Nazaré?), numa região de rebeldes que se insurgiam contra o Império Romano e a elite Judaica a serviço de Roma; um povo oprimido, porém, na expectativa da vinda do Messias outrora prometido por Deus pelas vozes dos Profetas.


Andando pelo Shopping Center da minha cidade, e outras tantas cidades não são diferentes, percebo que a figura central do Natal não é o Menino-Jesus, sim papai Noel: velhote-propaganda da sociedade de consumo, personagem que deturpou a figura lendária do verdadeiro Papai Noel em nome das compras de presentes promovida pela sociedade de consumo.


Segundo a tradição da Igreja Católica, o Papai Noel foi Santo Nicolau de Mira, bispo grego do século IV da era cristã. Era costume desse santo-homem dar presentes e ser uma pessoa bastante pacífica e amigável com crianças. 


Na sociedade de consumo atual, o Natal transformou-se numa festa das compensações inconscientes cuja maioria das pessoas, ausentes durante o ano inteiro na vida daqueles que estão “próximos/distantes” agora vão ser presenteadas com um sorriso sem afeto por parte de quem dá presentes. Dar presente  hoje é um ato que atende ao apelo do comércio que por meio da publicidade nos faz comprar, comprar e comprar, porque o vazio da vida se preenche com as futilidades criadas e lançadas no mercado como sinônimo de felicidade. 


Natal é festa da comilança daqueles que têm poder aquisitivo e se empanturram-se com as guloseimas e outras comidas típicas do modismo atual para este tipo de festa comestível. Come-se feitos porcos gulosos em situações de engorda. Natal é festa da bebedeira sem limites (excetos para o/as confrades da Confraria Santo Onofre ) daqueles que não têm controle sobre si e ingerem os líquidos alcoólicos até ficarem bêbados e intoxicados para preencher o vazio da vida. 


Não somos contra a festa do Natal com a ceia típica da tradição religiosa onde a comensalidade , que é uma prática tão antiga quanto à nossa existência como seres humanos, faz parte da festa porque é um referencial da vida. Alguém já escreveu que a comensalidade é tão central à vida humana que está ligada à própria emergência do ser humano enquanto tal. (...) .


Nem sempre realizamos nossas festas ou banquetes natalinos com esse espírito da comensalidade, pois, “A comensalidade supõe a cooperação e a solidariedade de uns para com os outros. Foi ela que propiciou ao ser humano, na transição evolucionária, o salto da animalidade para a humanidade. (...)” . O Autor a quem nos referimos diz que nossos ancestrais, já na pele de humanos, diferentes dos animais, juntavam os alimentos e distribuíam-nos entre todos, começando pelos mais novos e pelos mais velhos e depois ao restante do grupo. Isso o tempo todo e não somente numa ocasião do ano.  Partilhar era uma prática inerente à vida nos tempos primevos da raça humana.


Essa prática ancestral continua arraigada em nós, porém, o “processo civilizatório” nos transformou em egoístas e desaprendemos a compartilhar. Para aqueles que resgataram ou ainda reservam o gesto da solidariedade, dói muito saber que milhões e milhões de pessoas não têm nada para comer ou repartir na noite de Natal; especialmente no Brasil nesses tempos sombrios de um governo desumano ao serviço de um sistema econômico que mata, como diz o Papa Francisco .


Então não adiante eu e você nos empanturrarmos de comida feitos “porcos em engorda” e bebermos feitos alcoólatras com nossos iguais se no mundo, e ainda mais no Brasil, milhões de pessoas não comem e nem bebem nada na noite de Natal, e muitos, passam fome o ano inteiro porque são miseráveis empobrecidos pelo sistema capitalista, agora na sua versão neoliberal.  


Nós, e aqui me incluo, não deveríamos ser homens e mulheres desconectados do resto da raça humana que passa fome por aí. Não podemos ser alheios ao drama dos famélicos, nossos irmãos. Somos tão responsáveis pela fome do mundo quanto o sistema que a produz. Aliás, somos coadjuvantes (porque muitas vezes somos omissos) e cúmplices dos mantenedores desse sistema injusto que gera riqueza para uns poucos, miséria, fome  e morte para muitos.


Então festejar o Natal neste mundo desigual que ajudamos a construir e o mantemos é uma afronta ao verdadeiro significado da Natividade, cujo significado é Deus que se fez um de nós naquela criança frágil, Jesus de Nazaré. Deus se fez criança e em toda criança se encerra uma promessa, um projeto de vida, uma utopia, um sonho, uma fantasia. No Menino-Jesus, a promessa, o projeto de vida, a utopia, o sonho e a fantasia é o Reino de Deus, com seu significado político-econômico-social, que mais tarde foi anunciado pelo Homem adulto, Jesus de Nazaré. 


O Reino de Deus não exclui ninguém. E não venha você me contestar dizendo que o Reino de Deus é no devir, depois da morte. No pós-morte é a plenitude deste Reino que já começa, ou pelo menos deveria começar, aqui e agora. 


Então Natal não é somente uma poesia, uma simbologia, uma festa romântica de um menino-deus distante, ou de um menino-deus-imagem de gesso deitada nos presépios da vida, Natal é a inauguração do Reino de Deus pregado e vivido pelo Jesus adulto.


Lembre-se que, na singeleza da cena Bíblica do Natal, os primeiros a receber anúncio da Boa-Nova foram os pastores, umas das profissões desprezíveis da época, os pobres por excelências da estrutura social do Império Romano e de uma Palestina submissa. E foi a esses renegados e esquecidos que se deu a notícia do nascimento do Libertador. Não nos esqueçamos que com o anjo, ao anunciar a Boa-Nova aos pastores, muitos (uma multidão) de anjos vindos das hostes celestiais louvavam a Deus e diziam “Glória a Deus nas alturas e, na terra, paz entre aqueles a quem Ele concede a Graça”. Isso é muito diferente de “paz na terra aos homens de boa vontade”.


De boa vontade as igrejas e até o inferno estão cheios! Não basta ter boa vontade. É preciso fazer a Vontade de Deus para que Ele nos conceda a sua Graça. Foi assim com Maria, a Mãe de Jesus (eis aqui a Serva do Senhor, faça-se em mim segundo sua vontade) e foi agraciada com geração e gestação do Filho de Deus. 


E não foi assim com o jovem rico que se dizia observar todos os mandamentos de Deus (um homem de boa vontade), porém, Jesus lhe diz para vender todos os seus bens e distribuir aos pobres de depois segui-Lo, e o moço de boa vontade entristeceu porque era senhor (dono) de muitos bens e não pretendia renunciar a sua riqueza!


Esse Jesus Libertador, em primeiro lugar e Salvado do Mundo, quer nascer em nossos corações e mentes. Para isso não basta uma adoração abstrata do Menino Jesus nos Presépios por aí. Como disse um místico poeta cristão do século XVII: "Nasça Cristo mil vezes em Belém e não em teu coração: estás perdido para o além, nasceste em vão." Ou, “Mesmo que o Cristo nasça mil vezes em Belém, se ele não nascer em ti, tua alma continuará desamparada (Angelus Silesius) . É preciso gestar Jesus em nossos corações e mentes para que Ele, de fato, nasça em nossas vidas! 


FELIZ NATAL!

*ANTONIO SALUSTIANO FILHO, militante das CEBs e dos movimentos sociais libertários.