Uma reflexão sobre a Quinta-Feira Santa - Revista Camocim

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Uma reflexão sobre a Quinta-Feira Santa



*Por Paulo Clesson  


Uma refeição, um gesto inesperado e desconcertante, incompreensão e um mandamento novo como testamento, eis os elementos que constituem a cena narrada no evangelho de João (Jo 13, 1-15) na Missa da Ceia do Senhor na Quinta-Feira Santa ou Missa do Lava Pés, como é conhecida popularmente. Cada elemento desses está rico de simbolismo e amplia de uma forma profunda o gesto do partir o pão e o vinho com os discípulos, narrado nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e tema da segunda leitura da liturgia de hoje, coisa que João não faz, a sua forma de narrar a última ceia se centra nas exigências desse “comer o corpo” e “beber o sangue”. 


Na cena de João não é mostrada a comensalidade da ceia propriamente dita, o foco está no que acontece no gesto inesperado de Jesus que lava os pés dos discípulos. Lavar os pés, na cultura judaica, da época de Jesus, era serviço destinado aos subalternos: servos, escravos e mulheres. Com certeza, para os discípulos, a atitude de Jesus foi um escândalo, o mestre não poderia se rebaixar a tal ponto. Para eles, Jesus era um messias guerreiro que lideraria o povo judeu em uma luta sangrenta contra a dominação do império romano, ninguém duvidava que ele pudesse fazer tal coisa, ele tinha o poder de Deus do seu lado, que lhe conferia habilidades inacreditáveis, até mortos ele ressuscitara. Sim, era ele, tinha que ser Jesus. Porém, Jesus frusta seus seguidores, ele não se mostra como o Messias das armas, mas da paz, incapaz de autorizar um lance de espada. É no Lava Pés que Jesus apresenta uma espécie de arma ou de método capaz de produzir uma força revolucionária avassaladora, que muda pessoas profundamente, que é capaz de derrubar qualquer força dominadora e de transformar qualquer realidade. 


 No gesto de lavar os pés dos discípulos, Jesus mostra que seu tipo de messianismo, na realidade, era marcado pelo serviço. Os discípulos puderam ver isso na dedicação de Jesus aos excluídos e marginalizados do seu tempo (leprosos, deficientes físicos, possessos, mulheres, cobradores de impostos, crianças etc). Jesus dá o exemplo ao se colocar na posição de servo, esse comportamento passa a ser exigência para o seguimento do mestre. Assim sendo, Jesus mostra que amar é doação de si para alguém, nem que seja para lhe tirar a poeira dos pés. Não se trata de humilhação, cuidar do próximo é romper com o ciclo de egoísmo e de indiferença que nos aprisiona em nós mesmos, é se colocar no lugar do outro e exercitarmos a solidariedade.


A sociedade cristianizada ainda não conseguiu assimilar um ensinamento de tamanha envergadura, é difícil, talvez, porque, assim como Pedro, que sintetiza um tipo de expectativa messiânica, muitos cristãos tenham construído uma imagem distorcida da pessoa de Jesus. Como consequência se torna difícil aceitar o messias que serve, esse perfil incomoda, frustra, mexe com alguns valores que estão culturalmente enraizados em nosso modelo de sociedade, que nos educa para o individualismo, a concorrência e a exploração, e que faz do outro meu rival e não meu próximo. A coragem de repensar valores, como faz Pedro, pedindo ao mestre não só o asseio dos pés, mas banho completo (batismo), que representa o compromisso com a proposta de Jesus, fica no horizonte da “metanoia” (mudança de direção, conversão). 


O mandato de Jesus “também vós deveis lavar os pés uns dos outros”, significa estar disposto a doar-se ao outro como servo, isso significa amar na gratuidade tal qual fez Jesus. Quando o sujeito entende e vive esse mandamento ele se humaniza, se humanizando se santifica e reata sua íntima relação com o Pai criador, reassumindo sua condição de imagem e semelhança dele.


O “amai-vos uns aos outros”, expressão que se encontra no mesmo evangelho, um pouco à frente da perícope destacada para a liturgia de hoje, é a grande arma de Jesus para mudar a sociedade, pois atua diretamente na maneira como me relaciono com o outro, que passa a ser meu próximo, meu semelhante, meu igual. Para uma sociedade como a brasileira, marcada nos últimos anos pela intolerância, pela falta de empatia e produtora de profunda desigualdade, o mandato de Jesus chega a ser criminoso, uma verdadeira subversão da moral e dos bons costumes, pois o amor ao próximo não é seletivo, não olha diferenças, não promove desigualdade. Muitos cristãos católicos, por exemplo, nem percebem que na liturgia eucarística, que todos os dias celebram, esse perigoso mandato está lá, alimentando o mistério celebrado no simbolismo de cada gesto ritual. É na lógica desconcertante do amor ao próximo que o Lava Pés, narrado dentro da última ceia de Jesus, alcança significado pleno, atentando para o compromisso que o discípulo assume ao sentar-se na mesa com o mestre, o rito do partir o pão e o vinho é o centro dessa compreensão.


Pão e vinho são alimentos, transmitem vida, nos outros evangelhos Jesus diz, na última ceia, ser o pão seu corpo e o vinho seu sangue, reparti-los entre os comensais da mesa passa a ser a tradução da inteira doação aos outros que foi a vida de Jesus, levada até as últimas consequências na oferta total de si mesmo em sua morte na cruz. Sentar-se à mesa, partir o pão e o vinho para fazer a memória de Jesus implica, dessa forma, em comprometer-se, também, em ser doação para os outros e isso se faz numa atitude de serviço. A Ceia do Senhor, a eucaristia, portanto, não é mero ritualismo, mas ela torna Jesus presente na história através da ação concreta dos discípulos de hoje em favor de qualquer pessoa que necessite de ajuda. Por isso, estar em comunhão com Jesus implica estar em comunhão fraterna e solidária com o próximo, seja ele quem for.


Em tempos de pandemia temos visto pessoas que demonstram esse amor ao próximo exemplificado por Jesus na última ceia: servidores públicos como os profissionais da saúde, na linha de frente no combate a pandemia, professores, policiais, assistentes sociais, etc, todas pessoas que estão para servir a população no que compete ao dever do estado. Vemos ainda ONGs, pessoas anônimas que doam alimento para quem não tem o que colocar na mesa, ou que doam seu tempo e ouvidos para escutar as dores e medos de outros, e também aqueles que conscientemente, por respeito à vida do semelhante, não se aglomeram e usam máscara. São várias as demonstrações de amor, de serviço gratuito ao próximo, de uma comunhão invisível que une os diferentes e faz de desconhecidos irmãos.


Que a mensagem da Quinta-Feira Santa nos faça pessoas melhores para a sociedade, e nos motive na construção de uma mesa da fraternidade.


- Paulo Clesson é professor de história e especialista em Biblia. 

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