Sexta-Feira Santa: A morte de Jesus de Nazaré - Revista Camocim

















sexta-feira, 2 de abril de 2021

Sexta-Feira Santa: A morte de Jesus de Nazaré

Jesus, morre numa cruz, mas por que morreu? Por que morte tão horrenda? 



 

Em Jo 18,1-19,42, trecho do evangelho proclamado hoje na celebração da Paixão do Senhor, a culpa da morte de Jesus recai sobre as autoridades religiosas do Sinédrio, um tipo de conselho formado pelas lideranças religiosas locais. Em Jo 11, 46-57, logo após o sinal   da ressurreição de Lázaro (João não usa o termo milagre), esse conselho se reúne para analisar o perigo que Jesus de Nazaré representaria para a nação e para eles mesmos. Os chefes dos Sacerdotes e os fariseus concluem que Jesus é uma ameaça em potencial para estabilidade política da Judéia, sua prática profética poderia desencadear a ira das autoridades romanas, mas também concluíram que Jesus ameaçava a posição religiosa, social e política que ocupavam. Eles decidem matá-lo, no entanto, fica a pergunta: do que acusaram Jesus?


No trecho do evangelho de hoje não percebemos de forma clara a acusação do Sinédrio, fica visível sim, um certo ciúme dessa elite religiosa sobre que sente seu poder ameaçado por Jesus. O texto de João, tampouco, faz menção a acusação de blasfêmia, algo que vemos nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). A acusação histórica plausível, e que concordam tanto os sinóticos como João, é a crítica de Jesus ao templo que, na compreensão dos fariseus, havia inclusive ameaçado de destruí-lo. A ofensa ao templo sim, constitui um crime sério para a legislação religiosa dos judeus. O templo, do ponto vista religioso, era alma do povo Judeu, ele representava o sinal da presença do Deus libertador no meio do povo. A crítica de Jesus era porque, na sua visão, o templo deixara de ser lugar de celebração da liberdade e de encontro com Deus, mas havia se tornado lugar de corrupção, pois as autoridades religiosas que o controlavam utilizavam-no para manter seus privilégios diante da sociedade judia e do poder romano, mantendo o povo pacato.


A crítica de Jesus ao templo ameaçava todo uma estrutura de sociedade em que religião e política caminhavam juntas, mas numa tensa relação. Mexer com um símbolo nacional tão grande significava insuflar os sentimentos do povo em relação à natureza de sua fé o que, em consequência, chegaria a atiçar o espírito nacionalista judaico que nunca aceitou a dominação romana e, com certeza, Roma reagiria promovendo grande derramamento de sangue.


No relato de João, diante do Sinédrio, Jesus é interrogado sobre o teor de seus ensinamentos e sobre seus seguidores, não há acusação formal, a narração de João enfatiza a maldade dos acusadores que defendem um modelo de religião. Na presença de Pilatos uma acusação contra Jesus começa a ser forjada, a insurreição contra o império. Na medida em que Jesus se confessasse rei dos Judeus sua culpa estaria confirmada, e sua condenação à morte sentenciada. Esse argumento de acusação consistia na prova apresentada de que Jesus falava de um tal Reino de Deus. Ora se a pregação do acusado apresentava a emergência de um novo reino, era lógico que isso ameaçava o poder de Roma, pelo menos em âmbito local, porém, em João, Pilatos não vê esse perigo em Jesus, entretanto, ele o condena pela pressão política das autoridades religiosas de Jerusalém e dos gritos de uma turma manipulada. Enfim, Jesus é condenado por ser considerado um agitador político, um perturbador da ordem estabelecida, uma ameaça ao poder político de Roma, um insurreto. Ele queria ser Rei, é a conclusão do inquérito que, ironicamente é fixada, a mando de Pilatos, no topo da cruz em grego, hebraico e latim: Jesus Nazareno Rei dos Judeus. 


A condenação de Jesus à morte de Cruz passa, portanto, pela insegurança de uma estrutura político religiosa que se viu ameaçada, cada uma em sua devida proporção, por um jovem pregador pobre da Galileia, periferia da Judeia, que anunciava um reino de diferente, um Reino de Deus. Na essência da pregação desse Reino, estava a proposta de um novo tipo de relacionamento com Deus orientado por uma compreensão de um Deus próximo, paterno e misericordioso que exige um novo de tipo de relação entre as pessoas baseada na vivência radical do amor ao próximo.


O Reino pregado por Jesus não é político, mas provoca crítica às estruturas políticas, não se reduz a religião, mas extrapola-a e se serve dela para se propagar. Jesus morreu por acreditar e defender esse reino, em função desse comprometimento foi abandonando na hora decisiva por seus amigos, inclusive sendo traído e negado por dois deles, sumiram seus admiradores, foi tratado como um criminoso, torturado, e humilhado na forma de execução mais horrível de sua época. 


Uns poucos acompanharam Jesus de Nazaré em sua jornada de dor: um certo discípulo amado e algumas mulheres ao pé da cruz entre elas sua mãe. A reflexão que se faz é que o verdadeiro discípulo segue o mestre até o final e, mesmo com medo, mesmo inseguro, se mantém fiel e é nessa fidelidade que se constrói a comunidade/família dos que sempre acreditaram e acreditam nele.


Quando um cristão olha para Jesus na cruz o que ele vê? Certamente a resposta catequética é a primeira que vem, “meu salvador”, não está errada, mas olhando de novo, e supondo que você não saiba quem é a pessoa crucificada, mas entende o que significava morrer numa cruz, o que você vê? Um subversivo, um torturado, um criminoso, um excluído. Causa da morte: executado porque se atreveu a amar demais. É assim que, na cruz, a Palavra de Deus encarnada deixa sua mensagem final: “eis o teu mestre”.


Paulo Clesson é Professor de História e Especialista em Biblia

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