Bolsonarismo, trabalho e política - Revista Camocim















sexta-feira, 26 de março de 2021

Bolsonarismo, trabalho e política

 "...O presidente se aproveita do desespero dos trabalhadores para vender a ilusão de que está do lado dos mesmos..."





*Paulo Clesson


A pandemia do novo corona vírus desnudou e expôs às “vergonhas” da sociedade brasileira. Naturalmente, a nudez em público causa constrangimento em grande parte das pessoas, em outras não. Dentre as “vergonhas” brasileiras, destacamos a profunda desigualdade social que sempre soubemos existir, mas que, em tempos pandêmicos, ficou visível nas seguintes situações:


1. na dificuldade de acesso de crianças e jovens à educação remota, que virou privilégio de quem pode pagar internet de qualidade e por aparelhos que sirvam a tal propósito. 

2. no número de brasileiros, outrora invisíveis, que clamam pelo auxílio emergencial, e que sobreviviam na informalidade.

3. nos fantasmas do desemprego e da fome que voltaram a rondar e assustar enorme parcela da população.


Dentre as mazelas acima, provoca bastante aflição a situação de muitos trabalhadores e trabalhadoras que perderam suas fontes de renda, as circunstâncias da pandemia impuseram o temido lockdown, prática que causa um forte impacto negativo na economia. Várias pessoas honestas, por estarem entre a cruz e a espada, têm se colocado contra as medidas restritivas que inviabilizam as atividades econômicas, e pedem às autoridades a total liberação das mesmas, afinal de contas o pão na mesa é uma necessidade vital e a maioria de nossa população não trabalha para ostentar luxo. [


Entretanto, a legítima fala, “eu preciso trabalhar”, não pode ser compreendida somente pela dura realidade que a tem provocado, a questão que se coloca é se, necessariamente, deveríamos ter chegado a essa situação de berlinda. Será que no passado recente, o poder executivo federal, responsável primeiro pela condução do país, não poderia ter tomado as decisões cabíveis para minimizar a catástrofe social e humana que ora se configura em nossa nação? Lógico que poderia, e muito já se falou disso em vários veículos midiáticos. O fato é que o líder maior da nação negou a gravidade da pandemia, preferiu se colocar contra as evidências científicas, e levantar o discurso da proteção da economia não levando em consideração que economia se faz com pessoas vivas, pois são os vivos que produzem e consomem. Entretanto, há coerência na leitura presidencial da realidade, afinal de contas concordar com a ciência e levantar a bandeira da defesa da vida, trata-se de discurso esquerdista, coisa de comunista.


Salvar a economia, para evitar o caos social, virou a retórica do chefe do executivo, mas por trás disso está a preocupação com as eleições de 2022. O presidente se aproveita do desespero dos trabalhadores para vender a ilusão de que está do lado dos mesmos, e os líderes políticos, que tem promovido as medidas restritivas para conter o avanço do vírus, estão contra. Na prática, o trabalhador olha para o discurso do presidente e diz: “- este cara está do meu lado, ele me entende!” 


É evidente que dizer, “fique em casa”, para quem perdeu sua fonte de renda, nestas circunstâncias, é difícil. Nesse caso, é do governo a responsabilidade de minimizar o sofrimento do cidadão e de lhe garantir as condições mínimas para sobreviver, enquanto sua vida corre risco, enquanto não houver condições de produzir seus meios de vida. Essa sempre deveria ter sido a premissa política no combate a pandemia.


Influenciado pela situação e seduzido pelo discurso presidencial, o trabalhador cai na falácia barata e deixa de perceber que o cenário atual é resultado de uma política do desgoverno federal no combate a pandemia. O negacionismo e o anticientificismo, apregoados desde que o vírus chegou no Brasil, são os verdadeiros culpados pelo que está acontecendo. Infelizmente, aqueles que deram eco a essas falas contribuíram para instaurar a confusão na cabeça das pessoas. Hoje o caos e a narrativa criada pelo presidente se tornaram armadilha para capturar eleitores.


Toda essa estratégia presidencial se assenta em convicções políticas e pseudocientíficas que a história se encarregou de execrar a muito tempo, hoje essas mesmas convicções estão mais próximas das argumentações do senso comum, mas que ainda tem seus defensores. Agarrado a esses frágeis fundamentos, o presidente não quis empreender esforços para conter o avanço da epidemia pelas vias comprovadamente científicas. Sua lógica nunca foi o controle da propagação da doença, o que muito contribuiria para uma recuperação mais rápida da economia, mas deixá-la seguir o curso natural, o que implicaria, logicamente, na perda de muitas vidas humanas. 


Na filosofia tosca do presidente, a morte não é problema, pois todos um dia morrem! Por isso, para ele, na pandemia, os menos resistentes morrerão, os mais fortes, os mais atléticos, sobreviverão, a natureza fará sua seleção. A nação sairá mais forte deste infortúnio natural, portanto, inevitável, e os que ficarem, poderão gritar com os pulmões cheios: “- Não nos comportamos como “maricas”, enfrentamos o vírus como homens”.


O preço da política bolsonarista sobre a pandemia, até este momento, tem sido o sacrifício gratuito da vida de pais, avós, de parentes próximos, amigos, de pessoas com algum tipo de comorbidade, dos desprovidos de plano de saúde e de cartão corporativo, da vida de pretos e pobres e até dos que aparentavam ser fortes (aqui entram os mais jovens), mas eram fracos. Em síntese, morrem os improdutivos, os imperfeitos, os servos e os invisíveis, preço pequeno para o viril bolsonarismo.


Camocinense. Professor de História 

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