Por Júnior Santiago
Incrível como a cada cena que mostra o sertão nordestino exibe não somente a dura realidade daqueles idos anos sessenta (época da novela), como também os dias que temos como contemporâneos. Quando o personagem “Miro” interpretado por Chico Diaz fala: “os home do governo não ia mentir pra gente!”. É justamente a frase que mais dói nos meus ouvidos porque é a que cala mais fundo em mim.
Na trama o “coronelismo” é tratado de um jeito bem peculiar, mostra a sucessão (ou o nepotismo) da família “Sá Ribeiro”. É essa família que manda e desmanda, contudo nada pode com a morte do patriarca Jacinto (Tarcísio Meira), no entanto, a viúva Dona Encarnação (Selma Egrei) utiliza o velório como fato social para a manutenção do poder permanecer na família.
Incrível como o Brasil até hoje é carregado de tudo isso. Das pequenas cidades chegando até na grande esfera nacional. Nossa ânsia de sempre buscar um “Salvador da Pátria” é tão grande que ficamos cegos diante daquilo queremos impor à realidade.
Vivemos a “síndrome do herói”; ou seja, não somos capazes (ou temos preguiça) de resolver nossos próprios problemas e esperamos que alguém o faça. O motivo disso? Porque é mais fácil. Voltando ao personagem “Miro”, ele coloca todo o seu sonho de melhor nas mãos “dos home do governo”. Nas mãos de quem apenas o iludiu com falsas promessas de melhora.
Ilusão é aquilo que nos dão quando precisam de nós. Os grandes coronéis do passado ludibriavam o povo mais simples em busca do poder. Hoje os grandes “coronéis” tem tentado (talvez conseguindo) voltar a iludir o povo para o retorno ao poder.
O passado visto na novela reforça a realidade que houve e que muitos querem que volte a atormentar nosso presente para desgraçar nosso futuro. Estou cansado de ouvir em telejornais aquilo que eles consideram o melhor para o Brasil. Já dizia Humberto Hessinger: “Quem são eles, quem eles pensam que são?”.
Pelo visto são as crianças mimadas filhas do coronelismo que choram para terem de volta o sangue que outrora tiveram e agora perderam. A novela Velho Chico mostra uma realidade que não foi deixada para trás totalmente e justamente por não termos nos desvencilhado por completo disso é que precisamos sair dessas amarras tão profundas que teima em persistir na mentalidade das “cabeças pensantes” de nossa sociedade.
E para encerrar em grande estilo, quero apenas expor o refrão de uma música da trilha sonora da novela cantada por Gal Costa e que ajuda a entender as manobras dos coronéis do passado brasileiro que anseiam o presente político: “tudo em volta está deserto, tudo certo; tudo certo como 2 e 2 são 5”.
*Júnior Santiago é camocinense, Graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula

