"A impotência (incompetência) em não poder se colocar no lugar do outro, isso é a burrice; e o “burro” não conversa, não dialoga".
Em 2012 escrevi uma monografia para conseguir a graduação no curso de filosofia; assumi um grande risco, que foi escrever sobre Immanuel Kant, considerado um dos filósofos mais difíceis de todos os tempos, pensamento complexo, conceitos pouco acessíveis e difícil digestão.
Hoje pretendo digerir superficialmente um assunto pouco abordado por Kant e ao mesmo tempo tão atual em nosso país: A Burrice. O autor alemão escreve em seu “Ensaio Sobre as Doenças” em detalhes daquilo que ele chama de doença mental bastante dura e sofrida.
E principalmente porque normalmente a burrice não faz aquele que é “burro” sofrer, mas quem sofre é o outro. Justamente porque ela (a burrice) implica a falta de abertura para o outro, para o diferente.Diferente daquele que não é “burro” que aqui chamaremos de “inteligente”.
A pessoa inteligente se distingue do burro porque ela se posiciona na posição de atenção (a atenção é sempre um sinal de inteligência), o inteligente presta atenção e anseia entender porque pode entender a limitação alheia; em compensação àquele que não tenta entender é justamente por não poder entender. Imaginemos o que é a incapacidade de uma pessoa que não pode entender algo além de suas próprias certezas fechadas.
Penso que essa pessoa deve se sentir muito mal por não ter o ensejo de entender. A impotência (incompetência) em não poder se colocar no lugar do outro, isso é a burrice; e o “burro” não conversa, não dialoga. Sendo assim não pergunta, não é curioso, não lê um livro, nem busca mudar de opinião ou ponto de vista; e aqui não confundamos isso com timidez; a timidez é outra coisa e todos nós temos traços de timidez mais ou menos acentuados. Já a burrice é sempre prepotente porque o burro não amplia o campo de visão, ora o mundo dele já está pronto, portanto seu horizonte está fechado e não há espaço para algo além da sua zona de conforto.
A ação de querer ou não entender algo, faz toda a diferença; logo há um impulso por trás. Essa é a marca da pessoa “burra” e da “não burra”: a ideia pronta; e essa ideia pronta é o que pode esconder a própria burrice com uma falsa inteligência e entendimento. É o que eu por conta própria decidi chamar de: progresso vazio. E rapidamente outros vazios surgem como o: pensamento vazio, por exemplo. Eis então a questão que nossos tempos têm apresentado quase todos os dias em nossos caminhos, meios de comunicação etc.
E como conversar com as pessoas nessa época de vazio? Vazio de pensamento. Vazio de ação. Vazio de essências. Acredito que as respostas prontas são muito arriscadas, no entanto, creio que para preencher esse vazio é necessário viver a arte: as artes visuais, a leitura, música, o cinema, a dança, o teatro, o carnaval, a espontaneidade, a alegria.
Longe de ser uma tarefa fácil, afinal existe o universo de certezas que são colocadas como verdades intransponíveis; mas, é justamente nesse excesso de certezas que devemos plantar dúvidas.
O excesso de certeza é o avanço do neofundamentalismo (não somente o religioso); precisamos plantar muitas dúvidas e plantar dúvida no universo de certezas é assumir o papel de “bruxos” em uma inquisição onde os inquisidores por não aceitarem o diálogo devido as suas certezas falaciosas, palatáveis e anestesiantes.
Isso me lembra do refrão de uma música dos anos 80. A banda era: “Sempre Livre” e cantava: “eu sou free, sempre free, eu sou free demais”. Nesse refrão existe um “duplo sentido” muito inteligente, afinal a palavra “free” em inglês significa livre; e segundo a música para ser livre é preciso sofrer. Os amantes da burrice não querem ser livres por isso não sofrem.
Não falo aqui de sofrimento em forma de prazer como os masoquistas sentem, porém o sofrimento que veio como consequência da busca incessante de liberdade e luta contra a tal burrice exposta nesse texto.
Para os “burros” de plantão apenas expresso a frase de outra música, agora da cantora Pitty: “O fracasso lhe subiu à cabeça”.
Por Júnior Santiago - camocinense, graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula.
