Existem três versões da canção: O Que Será (todas compostas por Chico Buarque); todas para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos” de 1976 chamam-se: O Que Será (Abertura); O Que Será (À flor da terra) e O Que Será (à flor da pele). Essa última não fala de amor, como muitos pensam; na realidade ela se refere à tortura durante o regime militar no Brasil.
Como a censura era algo sério era importante que as mensagens fossem muito bem colocadas dentro da arte. Nesse caso cada frase da canção esconde uma “mensagem subliminar” sobre os métodos de tortura utilizados pelos militares no Brasil; pretendo aqui demonstrar a análise da letra e a relação entre os métodos da tortura; indico também aos que não conhecem a música a ouvirem.
Iniciemos: "O que será que me dá. Que me bole por dentro, será que me dá. Que brota à flor da pele, será que me dá. E que me sobe às faces e me faz corar". Provavelmente o método de tortura mais conhecido da ditadura era o “pau de arara”, o preso em ficava amarrado em uma barra de ferro e de cabeça para baixo, fazendo o sangue fluir à cabeça (“que me sobe às faces e me faz corar”).
"E que me salta aos olhos a me atraiçoar. E que me aperta o peito e me faz confessar. O que não tem mais jeito de dissimular. E que nem é direito ninguém recusar. E que me faz mendigo, me faz suplicar". Havia também a "cadeira do dragão", onde os torturados levavam choques pelo corpo: ouvidos, órgãos genitais e principalmente nos mamilos (“que me aperta o peito e me faz confessar”).
No início dos anos 70, a tortura foi ficando cada vez mais visível e criticada por outros países. O governo não conseguia mais esconder os crimes que cometia (“o que não tem mais jeito de dissimular”). A tortura não podia ser evitada pela vítima, (“e que nem é direito ninguém recusar”); os torturados muito provavelmente imploravam para que a tortura acabasse (“e que me faz mendigo, me faz suplicar”).
"O que não tem medida, nem nunca terá. O que não tem remédio, nem nunca terá. O que não tem receita". Aqui lembremos que aconteceu em nosso país o Ato Inconstitucional nº5 (AI 5), a letra mostra a lei que institucionalizava a censura e a tortura como "medidas de ordem" à nação.
"O que será que será. Que dá dentro da gente e que não devia. Que desacata a gente, que é revelia. Que é feito uma aguardente que não sacia. Que é feito estar doente de uma folia. Que nem dez mandamentos vão conciliar". Novamente, mostra o ato de tortura como política no Brasil (“dentro da gente e que não devia”), que fere a Constituição e a vontade do povo (“desacata a gente, que é revelia”), e o AI 5 que não possui qualquer justificativa plausível (“nem dez mandamentos vão conciliar”).
"Nem todos os unguentos vão aliviar. Nem todos os quebrantos, toda alquimia. E nem todos os santos, será que será. O que não tem descanso, nem nunca terá. O que não tem cansaço, nem nunca terá. O que não tem limite". Aqui levanta a questão do “tratamento médico” à disposição dos torturados, afinal eles não poderiam simplesmente morrer antes de delatar os outros companheiros, deveriam sempre suportar mais sessões (“nem todos os unguentos vão aliviar”), e o desespero das vítimas diante da dor interminável (“nem todos os quebrantos, nem todos os santos, o que não tem cansaço, o que não tem limite”).
"O que será que me dá. Que me queima por dentro, será que me dá. Que me perturba o sono, será que me dá. Que todos os tremores me vêm agitar. Que todos os ardores me vêm atiçar. Que todos os suores me vêm encharcar. Que todos os meus nervos estão a rogar. Que todos os meus órgãos estão a clamar. E uma aflição medonha me faz implorar". A dor provocada pela tortura através da: "cadeira do dragão" e "pimentinha", ambos envolviam choques elétricos e queimaduras (“que me queima por dentro”), também havia a "geladeira", celas iluminadas e frias que impediam os torturados de descansarem entre uma sessão e outra (“me perturba o sono, que todos os tremores me vêm agitar”), as febres causadas por infecções (“todos os tremores, todos os suores”). Enfim, a dor que já não se aguenta (“meus nervos estão a rogar, meus órgãos estão a clamar, aflição que me faz implorar”).
E o trecho final nem precisa de explicações: "O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem juízo".
Júnior Santiago é camocinense, graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula.
