Há muitos anos, quando eu possuía mais de uma dezena de botes, vivia numa azáfama medonha, aviando o abastecimento dos mesmos para mais uma viagem, isto quando não os estava descarregando, o que geralmente consumia um dia todinho de trabalho! Minha luta era uma luta sem fim, pois logo após o descarregamento era aquele corre-corre para dotá-los novamente de rancho, gelo, lampiões, poitas, fateixas, âncoras, austargas, enxárcias, bujarronas, bússolas (naquele tempo ainda não havia o GPS), calafate, catraias, moitões, agulhas de palombar, lonas fluminenses... enfim o que mais se possa imaginar. Isto sem falar das coisas miúdas do velame, do massame e do poleame, além de outros itens que constam da Marinharia! Para não cansar o leitor, nem vou falar do despacho do rol de equipagem da tripulação e das vistorias em Seco e Flutuando, as quais me davam grandes dores de cabeça! Sem contar das minhas andanças pelos distritos policiais à procura dos pescadores beberrões, estes que acabavam sempre se metendo em grandes encrencas, principalmente por falta do pagamento às madames dos muitos prostíbulos e casas de tolerância! Alguns deles tinham amantes e muitas delas eram comunitárias, o que sempre acabava em pancadaria, pois o outro, desconfiado, terminava descobrindo as marmotas de sua mulher dos outros e a confusão estava feita! Quase sempre o novo amante levava a melhor, pois aquela que caía na sem-vergonhice sempre dava um jeito de arranjar um parceiro bem grandão, com uns troncos de braços assim e uns pés deste tamanho! Não sei por que elas gostavam tanto de homens de pés grandes assim!
Foi isto mesmo se deu com o Zé Gabriel, um marido atraiçoado que, chegando do mar por alta madrugada, fatigado que vinha de uma viagem de mais de vinte dias, doido para tomar pelo menos um banho e tirar aquela maresia do corpo, passou a chamar pela mulher, que nada respondia, sendo que na casa reinava só aquele silêncio quase absoluto, não fosse o canto irritante de um grilo! Começou por chamar baixinho, quase num sussurro, para não assustá-la; mas como ninguém respondesse, foi elevando a voz até chegar ao ponto de gritar, acordando um vizinho que, aporrinhado com aquele alarido do outro, respondeu lá de dentro da casa: “Deixa de grito, seu corno, senão vai acabar acordando o macho que está dormindo com tua mulher!” Nisto, o corno, digo o marido, desesperado, meteu o chute na porta, tentando derrubá-la; ao que o amante gritou lá de dentro: “Pode parar com esta pancadaria, seu corno. Se entrar vai comer faca, pois a mulher agora é minha e em minha mulher ninguém pega! Fica calmo aí, que é melhor, pois vou mandar que ela jogue teus panos de bunda no meio da rua. Tu pega e vai embora caladinho!”
Nisto a mulher (mulher do cão), com a cara mais lambida deste mundo, arrumou a tralha do ex-marido numa trouxa, dando um nó nas pontas e jogou aquilo tudo pela janela, com desprezo! O pobre coitado, corno que dava dó, com uns chifres deste tamanho assim, parecendo um touro, sentou-se no fio de pedra, choramingando, feito um cão que tem sarnas, feridas e sinais. Chorou, chorou, chorou e, depois de mais de hora de choro, tomou o rumo da venta, pela fria madrugada. Até hoje não se sabe ao certo o seu paradeiro. Dizem que mora na cidade de Bragança, no Pará, e que já é corno outra vez! O amante da nova mulher é um tal de Zé Dentão! Ô povo para saber das coisas!
A antiga mulher, esta faz vida num cabaré da Rodagem do Lago, que o amante logo a trocou por outra mais nova, que neste negócio de traição todos perdem, menos o amante, que sempre acaba ganhando alguma coisa, quando não perde a vida!
(Raimundo Bento Sotero, poeta e escritor)

