FALTAM ÍCONES NA IGREJA DO BRASIL - Revista Camocim

sábado, 31 de outubro de 2015

FALTAM ÍCONES NA IGREJA DO BRASIL

Tenho sentido um vazio muito grande dentro da Igreja Católica no Brasil. Eu infelizmente não tive a oportunidade de ver Dom Hélder Câmara em seus áureos tempos de luta e militância onde influenciava o mundo com sua simplicidade, calma, sabedoria, inteligência, força e testemunho. Realmente em nossos dias falta uma referência brasileira dentro do clero. Nas pequenas cidades, nos bairros distantes, nos grotões escondidos tenho certeza que há muita gente sim na Igreja Católica fazendo a diferença para o bem, nesse caso pode ser ou não parte do clero.

No entanto fico triste em perceber que temos vivido com referências do passado. Considero extremamente louvável o modo como os ditos “padres cantores” evangelizam; não tenho nada contra nenhum deles, ao contrário, aprendo as músicas e tudo. Contudo noto uma grande apatia quando o assunto são as questões relacionadas aos problemas práticos da vida cotidiana somados com nossa espiritualidade cristã católica.

Tenho visto e escutado lindos discursos, palavras muito bem colocadas, citações de grande poesia e alguém mais sensível até chora pela emoção causada, porém depois que o momento passa a pessoa vira para o lado vê que falta arroz na panela olha para o outro lado e falta feijão no prato; agora o choro virá, mas por outro motivo e dessa vez por algo mais concreto na vida humana.

E como diz a música: “vem entra na roda com a gente também”. É necessário entrar na roda e fazer a roda girar. Ajudar a empurrar a engrenagem, por em prática toda à teoria que de tão bem elaborada fica engessada e ninguém consegue abrir a porta para poder se encontrar dentro desta. Os ditos “leigos atrevidos a Igreja” é que têm empurrado.

Nossa Igreja já tem muitos diplomas pendurados nas paredes e lindas palavras colocadas nos livros e documentos. Agora precisamos de outra coisa. Nos tempos de pós-modernidade as urgências são fortes e são urgências diferentes de como vinte anos atrás, ou seja, a teologia da libertação mesmo com toda a importância e eficiência não responde mais às nossas atuais necessidades, entretanto desconfio que a “teologia da barganha” também funcione muito menos a “teologia do sentimentalismo”. 

Justamente por isso é que penso na urgência de nomes de peso dentro do clero brasileiro para servir de referência. Nosso papa Francisco é referência para a Igreja como um todo no mundo, mas no Brasil não vislumbro pessoas que concentrem o trabalho pastoral com testemunho. Don Pedro Casaldáliga infelizmente não tem a força de antes.

Frei Betto infelizmente não tem o apelo que a pós-modernidade anseia e precisa; em outros (que prefiro não citar nomes) não vejo a profundidade necessária para atingir o lado mais ranzinza e elitizado. Eis então o grande desafio da pós-modernidade: encontrar uma referência que consiga conciliar a intrincada e profunda teoria com a solidez da prática sem esquecer-se da espiritualidade, ideal e comunhão com a Igreja Católica de Jesus Cristo. 

Provavelmente seja por isso que encontrar alguém para abraçar tantas vertentes tem sido tão difícil. Ou então o problema esteja em justamente procurar, ora ninguém procurou Don Hélder Câmara para ele ser um ícone de luta pelos pobres e ao mesmo tempo força para encarar os tribunais velados da inquisição silenciosa que castiga em surdina. Ninguém pede para ter dores de cabeça.

E do mesmo jeito, sei que ninguém pediu para eu escrever algo assim: tão raso, mas tão pretensioso que os desavisados julgarão como profundo. E partindo do raso da profundidade faço a seguinte pergunta: Alguém dentre nós deseja ser um ícone?

Júnior Santiago é camocinense, Graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula.