Por Júnior Santiago
Em 2008 li o livro “O Código da Vinci” do escritor americano Dan Brown, além de uma trama relativamente interessante o que chama atenção no livro é a suposta mensagem contida no quadro do italiano Leonardo da Vinci. Ali estaria o segredo de que Jesus teria tido um relacionamento com Maria Madalena. Tive a chance de estudar especificamente sobre essa pintura na faculdade de teologia que faço na PUC-Minas; hoje me sinto preparado para falar a respeito. Então, vamos lá.
Leonardo da Vinci entre muitas coisas era astrônomo, e havia em si um desejo: o de retratar aquilo que a natureza nos tem a oferecer, os elementos naturais e a tipologia de cada elemento: terra, fogo água e ar. De uma maneira pouco convencional ele faz isso na pintura intitulada “A Última Ceia”.
A tipologia que ele queria exprimir seria: fazer uma pintura dualista, ou seja, mostra sempre duas coisas opostas como: vida e morte, consciente e inconsciente, luz e escuridão, interior e exterior. Por isso o quadro é cheio de luzes. E onde há luz é o consciente unido com a vida nas partes escuras temos o inconsciente e a morte. É o único quadro dele que não pertence a ninguém, porque é um afresco. Isso significa que está em uma parede, logo não se pode tirar dali então ele a pintura pertence à humanidade. Isso tem a ver com Jesus, porque Cristo é para todos.
O fato de Jesus estar no centro do quadro também tem sua simbologia. Nada na pintura foi colocado ao acaso, tudo é de propósito. Ele (Jesus) é o centro; o centro entre os 12 discípulos; cada discípulo representa um signo do zodíaco; ora, cada signo do zodíaco tem um elemento da natureza que o rege (fogo: áries, leão e sagitário; terra: touro, virgem e capricórnio; ar: gêmeos, libra e aquário; água: câncer, escorpião e peixes).
A Igreja Católica não acredita em horóscopo e Leonardo da Vinci também não, mas ele tinha essas informações e as utilizou a seu favor para compor o quadro.
Cristo é o centro, porque tudo parte d’Ele; então qualquer linha perpendicular que seja traçada no quadro sempre passará pela localização do coração de Jesus. Continuando, a “análise” pode-se perceber que os discípulos estão separados em quatro grupos de três pessoas. Sendo: presente passado e futuro, ou seja, um ritmo fixo (passado), comum (presente) e mutável (futuro). Primeira coisa a ser compreendida é que a cena; é a conversa entre os apóstolos de quem iria entregar Jesus naquela noite. Por isso cada um tem uma expressão diferente no rosto e cada um tem suas mãos indicando algo. E Jesus é o único no quadro calmo, e suas mãos estão: uma pra cima e outra pra baixo. Dar e receber. Consciente e inconsciente.
Começando da direita de quem vê tem: áries é o signo que inicia aqui representado pelo discípulo Simão, ele tem as mãos estendidas pra frente porque aponta um caminho a ser seguido, o caminho por onde o quadro deveria ser visto. Depois temos Judas Tadeu, ele é touro que é materialista, preocupado que nada falte por isso sua mão apontando para o próprio peito, como se dissesse: “isto é meu” (não confundir com Judas Iscariotes); depois há Mateus é gêmeos, ele tem a cabeça de um lado e as mãos para o outro (em todas as direções) atento às mensagens de Cristo e ao mesmo tempo à Torah (livro sagrado dos judeus).
Depois no segundo grupo. Filipe é câncer, está com as duas mãos apontadas para o coração como pai que aconchega o filho no colo, reza a tradição que foi Filipe que cuidou de Maria mãe de Jesus depois da crucificação indo ambos para Éfeso (atual Turquia); após temos Thiago Menor representando leão, com os braços abertos, é espaçoso e expansivo, seu peito na pintura é todo iluminado; depois temos Tomé que simboliza virgem, ele está escondido só aparecendo apenas o rosto e uma de suas mãos com o dedo indicador apontando para cima, como se duvidasse que alguém ali fosse capaz de entregar Jesus, é uma posição de questionamento e ao mesmo tempo timidez.
E para cada um dos seis primeiros signos temos os seus complementos. Essa primeira parte do quadro é toda iluminada, é o consciente humano. As luzes da vida. Em contraste com o outro lado: mais escuro e sombrio que é o inconsciente. E antes de falar da segunda metade do quadro, falemos de Cristo (a figura central). Jesus está em uma posição triangular, porque indica a Trindade Perfeita (Pai, Filho e Espírito Santo) e logo na sequência de Jesus temos outro espaço vazio (outro triângulo) e quando se sobrepõe um triângulo com o outro temos a Estrela de Davi, símbolo do judaísmo que tem doze lados. Aqui podemos falar a respeito do número doze: doze apóstolos, doze tribos de Israel, doze meses do ano e tantas outras situações que o número doze é importante.
Continuando com os apóstolos o próximo é João. Aqui estaria a polêmica do quadro. Aqui não cabe Maria Madalena na pintura, afinal ela não tem sentido teológico. E se Leonardo retratasse Maria Madalena teria também que retratar Maria mãe de Jesus; afinal a mãe de Jesus é mais importante que Madalena. E nenhuma das duas está retratada. João era o mais jovem dos discípulos (por isso seu rosto não ter barba e suas feições serem menos rudes) conhecido como o discípulo amado também foi ele quem ficou ao lado de Maria mãe de Jesus na hora da crucificação; o nome “João” em hebraico significa fiel.
Agora temos João (libra) com as mãos quietas que pondera, pensa, reflete e espera prefere ser prudente mesmo João sendo o mais jovem dos apóstolos; em seguida temos Judas Iscariotes que é escorpião, único ser da natureza que se suicida, é o único na pintura que tem o rosto escurecido e na mão segura um saco de dinheiro e cumpre a ordem de Jesus: “vá e faça o que tens que fazer” (Jo 13, 27), ou seja, Judas não traiu Jesus ele entregou (o que é bem diferente); logo após temos Pedro que é sagitário, com uma das mãos está em cima de João e a outra com uma faca virada para trás, demonstrando que o ser tem sua parte humana e animal, razão e instinto Pedro era impulsivo se arriscava, a faca simboliza a defesa, ele não quer agredir ninguém, porém se precisar ele pode ferir.
O próximo apóstolo é André que tem as mãos viradas para frente, na intenção de “afaste-se”, ele é capricórnio, sua imagem é de frieza porque não deseja mostrar sua emoção para ninguém; o próximo é Thiago Maior simbolizando aquário, uma mão toca Pedro (sagitário) o braço pega em André (capricórnio) representa a expansão, o discípulo que foi mais longe na evangelização da fé em Cristo (onde hoje é a Espanha e sobre seus restos mortais foi construída a igreja de Santiago de Compostela) o último discípulo do quadro é Bartolomeu, peixes, tem as mãos apoiadas sobre a mesa e os pés iluminados, aquele que muda e surpreende, assim como o mar.
Para encerrar, é necessário falar do “Santo Graal”; que o não aparece na pintura, no entanto está presente. Voltando a uma informação inicial desse texto; onde cada linha perpendicular do quadro converge para o coração de Jesus. O Graal é o Coração de Jesus; feito de carne e sangue. Jesus dá para os discípulos sua carne e sangue, ou seja, o seu coração.
Portanto, nessa pintura de Leonardo da Vinci existe um significado muito mais profundo, enriquecedor, teológico e inteligente do que as supostas teorias que o razoável escritor Dan Brown colocou em seu livro “O Código da Vinci”. E antes de acreditar em qualquer teoria de conspiração que a mídia expõe para vender seja o que for (livro, filme, novela, etc.) busquemos nos informar com fontes seguras a respeito do assunto. Aos que conseguiram chegar ao fim desses sou pretensioso ao expor: obrigado, o código da Vinci foi realmente revelado.
Júnior Santiago é camocinense, graduado em filosofia chancelado pela UFG e atualmente faz teologia na PUC Minas Gerais. Congregação São Pedro Ad Víncula.

