Que lições Dilma vai levar da humilhação mundial que sofreu na abertura da Copa? Continuará priorizando os que a agrediram ou quebrará alguns ovos?
por Lino Bocchini — publicado
13/06/2014 11:21, última modificação 13/06/2014 15:31
Todo mundo viu. Literalmente
todo O mundo. Centenas de milhões assistiram ao vivo um estádio com 62 mil
pessoas gritar: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Desculpem escrever o palavrão,
mas é necessário mostrar a gravidade do que ocorreu. Dilma também viu e ouviu,
várias vezes. Na transmissão da Globo o coro invadiu o áudio pelo menos três
vezes.
Em um evento como o desta
quinta 12, vaias a mandatários são comuns, quase a praxe. O que aconteceu em
São Paulo na abertura da Copa do Mundo, contudo, foi além. Não foi uma vaia,
como na abertura da Copa das Confederações, em Brasília. Foi uma monumental
grosseria made in Brazil. Uma falta de educação abissal e carregada de
simbolismo. A plateia que pagou até R$ 990 para estar ali xingando Dilma, e os
mais ricos e famosos não pagaram nada. Zero. Estavam, como por exemplo Angélica
e Luciano Huck, na área VIP.
E o que Dilma achou disso, o
que pensou antes de dormir?
Difícil saber como Dilma
registrou essa agressão, mas espero que tire uma lição do que presenciou em
Itaquera.
Não faz o menor sentido
continuar governando prioritariamente para essas pessoas. E não é uma questão
de “gratidão”, nada disso. Dilma é, claro, a presidenta de todos os
brasileiros. Mas não se justifica o número de concessões e agrados que ela se
obriga a fazer para poderosos em geral, sejam eles do agronegócio, evangélicos
fundamentalistas, banqueiros ou donos de redes de televisão.
Para chegar ao poder e
conseguir governar, Lula fez tais concessões –que já existiam desde sempre,
diga-se. Escolheu um grande empresário para a vice, aliou-se a partidos
conservadores, discursou várias vezes para os donos do dinheiro prometendo não
ameaçar seu poderio –como de fato não o fez. Naquele momento histórico,
entretanto, essa atitude era estratégica, defensável até. Não é mais.
O quadro é outro, o país é
outro. Ninguém mais, a não ser os delirantes que enxergam sombras de Chávez e
Fidel embaixo da cama, acha que o PT vai colocar sem-tetos em seu apartamento
ou implantar uma ditadura comunista no Brasil.
No dito popular, "sem
quebrar ovos não se faz uma omelete". Alguns argumentarão: “mas no Brasil
isso é impossível, as estruturas estão aí há séculos, não dá para mudar tudo de
uma vez”. Concordo. Tudo é muita coisa, e de uma vez é muito rápido. Mas entre o
chavismo e os Estados Unidos há muitas possibilidades. Temos que criar nosso
próprio modelo. E aí não tem jeito: Dilma tem que quebrar alguns ovos. E se não
dá para quebrar a caixa inteira, pelo menos alguns têm que ir para a
frigideira. Por exemplo:
Reforma política profunda,
minando o próprio sistema que a faz refém de picaretas históricos por um par de
minutos na TV;
Taxação de grandes fortunas,
começando pelas astronômicas e inaceitáveis heranças que perpetuam a
desigualdade no país;
Reforma agrária real, abandonando
o incômodo posto de governo que menos assentou famílias;
Democratização real da
comunicação, revendo concessões públicas e alocando melhor as verbas
publicitárias governamentais;
Direitos humanos de verdade,
encarando de forma contundente o racismo, a homofobia e o machismo;
E por aí vai, o número de
“ovos” a ser quebrado no Brasil dava para fazer uma omelete para o País todo.
“Ah, mas não vai dar para fazer tudo isso”, dirão alguns. É óbvio que não será
possível fazer tudo o que realmente tem de ser feito em nosso país de uma vez e
ao mesmo tempo. Mas para valer a pena um segundo mandato, ou Dilma encara de
frente esses desafios ou seguirá governando para estes que a xingaram de forma
grotesca na abertura da Copa.
O que você escolhe, Dilma?

