
Cresce o número de usuários de
drogas beneficiados pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). No
Ceará, a quantidade de auxílios-doenças relacionados ao uso de drogas
psicoativas no período de 2009 a 2013 triplicou. Foram 270 benefícios em 2009,
saltando para 802 em 2013 (197%). Índice superior ao nacional, que passou de
32.824, em 2009, para 49.276, em 2013 (50%). A média é de 160 novos benefícios
concedidos, por ano, no Ceará.
Transtornos mentais e
comportamentais devido ao uso de múltiplas drogas e ao uso de outras
substâncias psicoativas corresponderam a 71,4% dos auxílios concedidos pelo
INSS no ano passado no Ceará. Em seguida, benefícios decorrentes do uso de
álcool (16,8%) e cocaína (10,2%). O restante (1,6%) refere-se ao uso de
opiáceos, canabinóides, sedativos e hipnóticos, outros estimulantes (inclusive
a cafeína) e alucinógenos.
Diário do Nordeste
Foram concedidos, ainda, 807
auxílios por episódios depressivos, 492 por transtorno depressivo recorrente,
sete por intoxicação por narcóticos e psicodislépticos, dois por intoxicação
por drogas psicotrópicas não classificadas em outra parte, dois por intoxicação
por drogas que afetam principalmente o sistema nervoso autônomo e três pelo
efeito tóxico do álcool.
Antônio Gonçalo Soares, chefe
do Serviço de Saúde do Trabalhador da Gerência Executiva do INSS em Fortaleza,
comenta que o aumento é reflexo da dinâmica estressante da vida urbana e do
maior uso de drogas lícitas e ilícitas. Trata-se de um benefício recorrente,
prova disso é que se tornaram rotina perícias médicas domiciliares, em
hospitais ou clínicas de recuperação.
Perfil
Soares explica que o foco da perícia
é determinar se a pessoa tem capacidade de trabalhar. Geralmente, são sujeitos
ainda na fase ativa, na faixa etária entre 20 e 40 anos. Dependendo da droga
utilizada e do tempo de internamento em clínicas de recuperação, esclarece que
o afastamento chega a cinco meses, até que a pessoa possa voltar às atividades
laborais. "As que mais incapacitam são as drogas ilícitas. O crack está
muito presente, mas geralmente não é a única droga que a pessoa utiliza",
ressalta.
As duas doenças que mais geram
solicitações de auxílio no INSS são as psiquiátricas de uma forma geral e as
geradas por traumas, a exemplo de acidentes de carro e moto. Entretanto, em
muitos casos, a classificação fica encoberta por uma doença traumática, apesar
de ser ocasionada pelo uso de álcool e drogas.
Na visão de Antônio Mourão
Cavalcante, professor titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Ceará (UFC), vários fatores contribuem para esta
realidade. Houve um acréscimo no uso de drogas, o fato de haver uma maior
aceitação social com o usuário, o que faz com que as pessoas assumam ter
problemas dessa natureza, e o uso do crack, que cria uma indisponibilidade
social rápida. Situação diferente do álcool, uma vez que o indivíduo bebe e tem
condições de trabalhar no dia seguinte.
Apesar dos dados alarmantes,
complementa o especialista, praticamente nada vem sendo feito por parte do
poder público no combate às drogas, a não ser algumas reações reacionais em
resposta às denúncias feitas pela imprensa e pela sociedade.
Cavalcante defende que quatro
caminhos têm de ser perseguidos para combater as drogas. O primeiro e mais
importante é a prevenção. Evitar que a pessoa se envolva com as drogas. O
segundo eixo é o tratamento, que não se resume à internação. "Esse é um
equívoco das pessoas. Dependendo do caso é que se vai estabelecer ou não o
internamento e, na maioria dos casos, não tem necessidade", salienta.
O terceiro eixo, de
responsabilidade dos órgãos da polícia e da Justiça, é não permitir que haja a
venda de drogas. Por último a reinserção, voltado para aqueles que já tiveram
problemas com drogas e querem sair, mas precisam de ajuda para se reconstituir.
Quando não encontram ajuda, muitos deles irão voltar a usar drogas. "É
preciso unir esses quatro eixos para ter uma política consistente de combate às
drogas, menos que isso é falácia", reforça o especialista.
Número de vagas vai aumentar
de 60 para 200
Em resposta ao cenário, a
Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) garante que a partir do próximo mês de
março irá aumentar de 60 para 200 o número de vagas nas instituições de
acolhimento de pessoas dependentes de álcool, crack e outras drogas. São elas:
Associação Comunidade Terapêutica Grão de Mostarda, Atos Centro Terapêutico,
Centro de Recuperação Leão de Judá, Fazenda da Esperança São Bento, Associação
de Assistência Social Catarina de Laboure, Associação Aliança de Misericórdia,
Casa de Recuperação Monte Sião, Comunidade Terapêutica Instituto Volta ao
Caminho, Associação Shalom de Promoção Humana e Centro de Recuperação Rosas de
Sarom.
Diário
O nome das instituições que
concorreram às 200 vagas foi publicado no último dia 31 de janeiro, conforme
previa o edital divulgado no Diário Oficial do Estado em novembro de 2012.
Além das 200 vagas, o governo
afirma que oferece assistência aos dependentes de drogas no Hospital de Saúde
Mental Professor Frota Pinto, na Messejana, que dispõe de 20 leitos masculinos.
Há ainda o Centro de Convivência Elo de Vida para dependentes químicos, com
capacidade para 30 pacientes/dia, que faz acompanhamento psicológico,
atividades físicas e cursos.
Luana Lima
Repórter
