quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Mortes cardíacas sem causa específica crescem 57% em 2020

Mais da metade dos óbitos por causas cardiovasculares sem esclarecimento ocorreu em casa, no Ceará, entre janeiro e outubro deste ano. Das 1.837 mortes por "causas inespecíficas", 1.046 ocorreram no domicílio da vítima, o que representa 57% do total. Essa foi a mesma porcentagem de aumento entre as causas inespecíficas, que no mesmo período de 2019 registraram 1.169 ocorrências no Estado. À época, as mortes em casa representavam 34% do total.

Os dados são da Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC), disponibilizados pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen) em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Eles levam em consideração informações fornecidas por cartórios.

Conforme o levantamento, o número geral de mortes por infarto retraiu 5%, caindo de 2.111 casos para 2.003. Contudo, quando se observam as ocorrências em domicílio, houve um crescimento de 26,7%, passando de 766 para 971, também entre janeiro e outubro. Pelas causas cardiovasculares inespecíficas 397 morreram em casa, em 2019, mas 2020 registrou aumento de 163%: foram 1.046 casos.

Ricardo Pereira Silva, professor de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e cardiologista do Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), pondera que esse cenário já era previsto desde março porque houve "uma orientação inadequada das autoridades de saúde" para que os pacientes só procurassem serviços especializados para casos suspeitos de Covid-19.

"Esqueceram de todas as doenças crônicas que não iam parar por ter aparecido a Covid. A mortalidade aumentou bastante. Vários pacientes com sintomas de infarto do miocárdio e AVC deixaram de procurar o pronto-socorro", observa. Pereira explica que o coração pode ser sede de várias doenças, como das válvulas, do músculo cardíaco e cardiopatias congênitas, embora a maior causa de mortalidade sejam as doenças coronarianas: angina e infarto.

"O que a gente observou principalmente durante o pico da pandemia foi a redução dos pacientes que procuram atendimento cardiológico. Tanto que houve uma redução de quase 70% nas intervenções coronárias percutâneas (tratamento da doença da artéria coronária) nesse período. Muitos desses pacientes, talvez por receio de pegar a doença, por alguma outra particularidade, tenham optado por permanecer em casa", confirma Gentil Barreira de Aguiar Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia Secção Ceará (SBC-CE).

Segundo Ricardo Pereira, embora as pessoas com doenças cardiovasculares estejam no grupo de risco para complicações da Covid-19, não podem se descuidar. "Portadores de doenças cardíacas, pulmonares e crônicas, de forma geral, devem se proteger mais, mas não devem se afastar de seus médicos", alerta.

"A gente acredita que é importante o paciente manter um acompanhamento da sua doença de base. Obviamente, quando for a consulta ou for o caso de procurar uma emergência, ele tem de se cercar de todos os cuidados preventivos contra a Covid", reitera Gentil Barreira.

Informações do Diário do Nordeste.

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