segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Como escolas de áreas pobres do Ceará têm notas acima da meta no Ideb

Ter boa condição financeira e, por isso, ser um aluno com desempenho superior aos estudantes de escolas de áreas pobres. Embora essa relação pareça previsível sob determinados aspectos, na educação ela nem sempre se comprova. No Ceará, em 2019, 224 escolas públicas tiveram nota no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) igual ou acima de 4,5. Essa é a meta estabelecida para o Ensino Médio da rede estadual. Destas, 74 são escolas localizadas em áreas pobres, pois, conforme classificação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), têm alunos cujos níveis socioeconômicos são 'muito baixo' ou 'baixo'.

O resultado, avaliam profissionais da educação, reflete um processo de evolução da equidade no sistema educacional público no Estado, alcançada, dentre outros, devido ao aumento das escolas integrais em áreas mais vulneráveis e às ações pedagógicas que garantem chances mais equilibradas aos estudantes de diferentes condições sociais. O levantamento feito pelo Instituto Sonho Grande, com base nos resultados do Ideb, e disponibilizado ao SVM, apontou ainda que destas 74 escolas, 55 são regulares e 19 de tempo integral.

Do total, 51 delas são classificadas como de nível socioeconômico "muito baixo" e 23 "baixo". A análise considera o indicador criado pelo Inep que classifica os níveis socioeconômicos dos alunos brasileiros em uma escala que vai de "mais baixo nível" a "alto nível". Este índice inclui, dentre outros fatores, a renda familiar, a posse de bens e a contratação de serviços de empregados domésticos pela família dos estudantes e o nível de escolaridade dos pais ou responsáveis.

Conforme o indicador, no nível mais baixo, a realidade dos estudantes envolve, muitas vezes, a ausência de renda fixa nas casas, os pais não sabem ler ou escrever, os bens na residência são básicos e, em alguns casos, eles não possuem celular. O levantamento do Instituto Sonho Grande analisou os resultados do Ideb, que é o principal indicador da educação básica no Brasil, sob a ótica da condição socioeconômica.

"80% dos nossos alunos vivem de programas assistenciais do Governo. A renda é em torno de 25% do salário mínimo", conta Neiziane Medeiros de Lima, diretora da Escola Elza Gomes Martins, em Pedra Branca, no Sertão Central do Ceará. A unidade localizada na periferia do município, é classificada pelo Inep como de "mais baixo" nível socioeconômico. No Ceará, dentre as escolas que têm essa mesma identificação, a unidade teve a maior nota no Ideb 2019 no ensino médio, com 6,1. A escola tem 495 alunos. Além do prédio principal, há duas extensões em dois distritos situados a mais de 40 km da sede da cidade.

"Nossa escola tem um prédio com estrutura de escola rural que passa por adequações. Estamos ganhando visibilidade. Temos até laboratório de informática, onde oferecemos iniciação à informática básica" relata a diretora. Neiziane diz que, devido ao baixo poder aquisitivo dos alunos, o Enem não é "o carro-chefe do ensino médio". "Nossos alunos não têm o perfil de serem custeados para cursar uma universidade. Então, temos que nos adequar para trabalhar com a realidade".

A escola recebe alunos de mais de 30 comunidades. O maior recorde de aprovação no Enem foi em 2019, quando 12 alunos ingressaram no ensino superior. A aposta pedagógica, explica a diretora, é acolher o contexto em que os alunos vivenciam e pôr em prática estratégias de aprendizado que o considerem. Uma delas é a adequação curricular à realidade local.

A situação é reiterada por Alana Alves Cardoso, de 15 anos, aluna do 1º ano. Ela relata que, durante a pandemia, os obstáculos financeiros ficam ainda mais evidentes.

Informações do Diário do Nordeste.

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