quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Alimentos pressionam inflação e induzem maior endividamento na Capital

Os itens de alimentação já protagonizam há alguns anos as compras à prazo feitas pelo consumidor de Fortaleza, mas a constatação, presente nas pesquisas da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE) ganha outro tom quando colocada diante de outra importante estatística: os preços dos alimentos encareceram em 2020, pressionando a inflação de Fortaleza.

Divulgada ontem (23) com os dados de setembro, a Pesquisa de Endividamento do Consumidor mostra que, em Fortaleza, o consumidor utilizou o crédito, sobretudo, para adquirir itens de alimentação (46,1%). A prévia da inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), cujos resultados foram também divulgados ontem, mas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma alta de 1,26% nos preços do grupo Alimentação e Bebidas em Fortaleza.

O economista e professor do curso de Economia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Allisson Martins, contextualiza que a inflação afeta negativamente a atividade econômica, pressionando os custos dos empresários e o orçamento das famílias, resultando na perda do poder de compra. "Os dados recentes de inflação preocupam, pois a dinâmica recente da elevação de preços se concentram fundamentalmente no grupo de itens de 'Alimentação e Bebidas', sobretudo por ser o de maior peso da cesta de produtos", ressalta.

Ele destaca os expressivos aumentos de produtos importantes para a alimentação do cearense. Além do arroz, ele pontua que itens como o tomate, cebola e o óleo de soja também apresentam significativa alta nos preços em 2020. "O cenário adverso do mercado de trabalho, o fluxo da renda afetada pela pandemia e a inflação, sobretudo de alimentos e bebidas, devem, infelizmente, elevar o aumento do nível endividamento das famílias", lamenta o economista.

O presidente do Instituto Brasileiro dos Executivos de Finanças no Ceará (Ibef-CE), Luiz Antônio Trotta Miranda, avalia que inflação nos últimos meses é fruto de um descompasso entre oferta e demanda. "A demanda está aumentando e a indústria não está respondendo com tanta velocidade. Isso gera uma pressão inflacionária. O que temos visto no setor de alimentos é muito ruim, principalmente para a camada de renda mais baixa", detalha.

Ele associa a alta nos preços dos alimentos à pressão cambial, que favorece as exportações e tem levado os produtores de alimentos a optarem pelo mercado externo. "O mercado internacional está demandando muitos produtos. Obviamente, os produtores que já vinham trabalhando com uma margem baixa enxergam nisso uma recomposição da margem de lucro", explica o presidente do Ibef-CE.

Trotta corrobora que os produtos que protagonizam a alta nos preços dos alimentos são itens de difícil substituição e que com o desemprego amplificado pela pandemia e consequente perda de renda, as famílias normalmente acabam recorrendo ao crédito. "Temos visto mais pessoas sem emprego e perda de renda, além da redução do auxílio emergencial para R$ 300. Isso leva essas famílias, que já estavam com o orçamento bastante comprometido, a entrar em uma situação orçamentária doméstica ainda mais complicado, então eu diria que é preciso ter muito cuidado", alerta o presidente do Ibef-CE.

Para Martins, a instabilidade do momento dificulta uma projeção de como a inflação deve se comportar nos próximos meses. "O cenário é bastante desafiador, principalmente pelo comportamento volátil do câmbio, questões relacionadas a sazonalidade (entressafra), diminuição de área plantada, entre outros fatores macro e microeconômicos".

Informações do Diário do Nordeste.

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