segunda-feira, 27 de julho de 2020

Com vergonha da Igreja Católica. O retorno das missas presenciais.

Por Celso Carias, “mendigo de Deus”

O título é uma provocação. Não tenho vergonha de SER cristão CATÓLICO, mas neste momento tenho vergonha de um setor da Igreja, pois não vejo uma justificativa plausível para o retorno das missas presenciais neste momento. Evidentemente que existem algumas situações de exceção.  Poder-se-ia esperar pelo menos a curva baixar bem mais.

E ser quiserem usar a lei, o Código de Direito Canônico me permite, como leigo, questionar autoridades eclesiásticas se houver uma razão que justifique (Cânon 212). Assim, pela segunda vez, coloco o questionamento. O que me motivou a escrever de novo foi um telefonema que recebi de uma amiga pedindo ajuda, pois uma pessoa conhecida dela estava revoltada com a situação de agendar a presença na Missa. Infelizmente não pude ajudar à amiga, pois como ela, discordo desta posição. Meus pais eram católicos. Participo da Igreja desde sempre. Agora sou teólogo, mas antes de tudo um batizado. Portanto, tenho o direito.

Na primeira vez disse que a igreja Católica estava perdendo uma grande oportunidade de um testemunho que ficaria para a história. Contudo, se testemunhar é difícil, então vamos pontuar algumas poucas questões para continuar a refletir.

Por favor, todos/as sabemos que só existe, verdadeiramente, Eucaristia, Ceia, Celebração do memorial da Páscoa, presencial. Outra forma é um serviço valido, mas não é a Fração do Pão.

A Missa é um ato público. Aberto a todos e todas que queiram estar presente. Então, como posso, a partir de um protocolo cuja segurança é questionável, abrir as igrejas com restrições? Restrições que impedem a presença de pessoas com grande necessidade de celebrar a eucaristia: os idosos. A Missa passa a ter um caráter discriminador.

Da outra vez alguns levantaram questões econômicas. Sim, é necessária a manutenção. Mas com a tecnologia podemos suplantar uma série de necessidades. No mais, realizar na própria carne a experiência de uma Igreja Pobre para os pobres pode ser uma oportunidade extremamente evangélica. Quem não está com problema econômico neste momento de crise civilizatória? Os bancos, os bilionários, as grandes corporações com certeza não.

A Igreja Católica tem um legado litúrgico extraordinário que agora poderia estar sendo incentivado. E existem pessoas realizando experiências maravilhosas: leitura orante, ofício divino, meditação, etc. Irmã Penha Carpanedo escreveu um artigo curto e profundo sobre isso: http://portaldascebs.org.br/2020/07/18/celebrar-a-fe-em-tempo-de-isolamento-social-por-penha-carpanedo-discipula-do-divino-mestre/ Mas vários textos têm aparecido sobre este assunto. Não vi nenhum com fundamentação que justificasse a volta das missas deste modo.

Outra coisa que este momento levanta é qual a missão do presbítero. Li um breve artigo que gostaria de ter escrito, mas ele ganha relevância por ser um padre quem escreveu: http://www.ihu.unisinos.br/601182-o-padre-nao-pode-fazer-tudo-em-toda-a-parte-artigo-de-marcello-neri Também disse na primeira vez que a missão do padre não pode ser reduzida a presidência da Eucaristia.

Por fim, para o texto não ficar enorme, a própria realidade das paróquias precisa ser revista. É uma discussão que vem desde o Vaticano II, mas nunca enfrentada com profundidade. A CNBB publicou em 2014 o documento 100, paróquia como comunidades de comunidades. A Congregação para o Clero do Vaticano acaba de lançar um documento interessante.  Para uma breve aproximação do documento recomendo um artigo bem fundamentado: http://www.ihu.unisinos.br/601155-paroquias-transformar-se-para-evangelizar  Depos da pandemia seria uma boa oportunidade enfrentar esta questão.

Como a leitura tem sido algo complicado nos últimos tempos, encerro por aqui. Porém, considero lamentável que a pandemia não seja uma oportunidade impar para a Igreja rever a sua grande e bela missão de continuar o Projeto do Reino de Deus em um mundo que precisa ser ressignificado.


Celso Pinto Carias é teólogo leigo do Brasil, doutor em teologia pela PUC do Rio de Janeiro, onde atualmente é professor, assume na CNBB o serviço de Assessor do Setor CEBs da Comissão do Laicato.

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