quarta-feira, 11 de março de 2020

O suicida não é covarde nem herói

Era pouco mais de meia-noite e, enquanto se preparavam para dormir, Luciana e Marden tiveram uma conversa corriqueira sobre os planos para o dia seguinte: a agenda de trabalho dos dois, uma festinha escolar dos filhos. Deram-se um beijo de boa noite. Luciana e as crianças dormiam quando Marden abriu a janela da sala e se jogou do 15º andar.

O salto para a morte aos 47 anos, depois de 15 de um casamento amoroso e harmônico, com dois filhos de 10 e 5 anos, lançou a família no absurdo vazio da dor e na vertigem da ausência auto-imposta e aparentemente inexplicável. Luciana tinha 41 anos, era psicóloga há 20 e decidiu então estudar o tema e se especializar em suicídio. Hoje, passados três anos daquela noite, é capaz de entender à luz da ciência o que aconteceu com Marden e com tantas pessoas que, como ele, tiram a própria vida, vítimas de um ou mais transtornos mentais subestimados por eles mesmos e invisíveis aos olhos de quem os cercam. Nesta conversa, a psicóloga mineira fala com enorme carinho do marido e nos explica por que o suicida não é nem covarde nem herói.


O que você se lembra do dia da morte do seu marido?

Eu e o Marden tínhamos conversado sobre os planos do dia seguinte: haveria uma festa na escola das crianças e eu não poderia comparecer mas ele falou que iria. Me deu um beijo e disse que ia dormir no quarto do nosso filho mais novo. Fui acordada pela minha irmã, que mora no mesmo prédio. Quando cheguei na sala a encontrei chorando e me dizendo que alguma coisa horrível tinha acontecido com o Marden. Na hora eu não entendi nada e disse que ele estava em casa, no quarto do nosso filho. Abri a porta do quarto e ele não estava. Na sala, a janela estava aberta e a rede de proteção havia sido cortada. Ele deixou a tesoura bem à mostra no batente e se jogou do 15º andar. Os pedaços cortados da rede ficaram no bolso dele. Acredito que tenha feito isso para não haver dúvidas de que ele próprio a cortara antes de se jogar. Deixou também uma longa carta, páginas e páginas com instruções minuciosas sobre questões práticas e sobre o que devíamos fazer depois da sua partida.

A última conversa deu alguma pista do que ele estava prestes a fazer?

Nenhuma. Eu sabia que estava passando por dificuldades na empresa (ele trabalhava no ramo de entretenimento) mas, nada que não pudéssemos superar. O Marden sempre foi uma pessoa muito alegre, animada, divertida. Nós sabíamos que havia algo de bipolar no seu comportamento, uma doença que ele subestimou e descuidou. Não se tratou como devia. Chegou a se medicar, mas sem a devida constância. Parecia sempre muito bem disposto, otimista. Hoje, depois de estudar o assunto, identifico nele características que o classificariam como um suicida potencial. Ele tinha o que chamamos de “depressão sorridente”. Sabe-se que 100% das pessoas que se suicidam tem um ou mais transtornos psicológicos. E meu marido tinha esses fatores de risco. Um deles é não enxergar uma solução para um problema. Há uma rigidez que os impede de pedir ajuda. Eles acham que tem que resolver sozinhos um obstáculo que acreditam intransponível.

Você se lembra dos seus primeiros pensamentos após o ocorrido?

O que lembro, dentro do choque, foi de pensar em como eu poderia contar para as crianças. O pai era muito amoroso, presente e carinhoso com eles. Assim como comigo. Ele os colocou na cama para dormir e simplesmente não estava mais lá no dia seguinte…

Eu não os acordei no meio da noite. Deixei que acordassem de manhã e então me sentei com eles no sofá e contei que o pai havia sofrido um acidente. Na mesma hora o meu filho mais novo perguntou: “O papai morreu?”. Eu respondi que sim, o papai morreu. Disse que ele fora consertar a rede da janela e se desequilibrou e caiu. Foi horrível: os dois choraram, saíram correndo. Me disseram que era minha culpa, que eu não tinha segurado o pai. Eu contei que não pude ajudá-lo porque também estava dormindo. Um ano depois, minha filha mais velha me questionou sobre a veracidade do acidente e eu contei a verdade: o pai se suicidara. Foi muito triste e naquele momento ela disse que a culpa era dela, porque às vezes ela não aceitava os convites do pai para jantar. Eu disse, imagine, vocês foram muito amigos, sempre juntos. Disse a ela que o pai morreu porque estava doente mas nós não sabíamos, ele não sabia. Ele estava muito doente e foi a sua doença que o matou.

Como foi para você enfrentar a culpa que por perder alguém amado por suicídio?

Não me senti culpada em nenhum momento. Hoje, com o conhecimento que tenho acho que poderia ter ajudado, mas naquele momento não tinha.

Eu sigo a filosofia budista há 20 anos e graças a ela, tenho uma aceitação maior dos fatos. Entendi, desde o início, que não adiantava me revoltar. Tratei de focar nas qualidades do Marden e nas coisas boas que vivemos, nós e nossos filhos. Tenho a convicção de que as coisas boas foram muito maiores do que o fim trágico.

Você concorda com a teoria que diz que, no caso do suicídio, assassino e vítima são a mesma pessoa e os sobreviventes tem que lidar com esse sentimento ambíguo em relação a quem partiu?

Não concordo. O suicídio é multifatorial. Quando a pessoa decide se matar, ela simplesmente não vê outra solução. Mesmo quem, como o meu marido, poderia ter tratado seus transtornos e não o fez não pode ser culpado: nossa sociedade sofre de psicofobia, que é o preconceito contra a doença mental. A gente tem que entender que é difícil para a pessoa aceitar o transtorno. O que podemos fazer como sociedade é combater o tabu e o preconceito. A primeira coisa seria mostrar que é comum, até banal, ter um transtorno. Não tem que ter vergonha. O suicida se sente envergonhado do que passa. Acha que tem que ser feliz e tem vergonha de procurar ajuda.

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