sexta-feira, 29 de setembro de 2017

PROCURANDO FRANCISCO DE ASSIS E OS "NOVELLUS PAZZUS" NOS DIAS ATUAIS.

É notório os sérios problemas de comunhão que considerável parte do Clero, e algumas autoridades do laicato, tem  com os propósitos de Francisco de Assis, o santo mais popular, cuja vida a  Igreja celebra nestes dias, através de novenários em vários lugares do mundo. O jovem que teve uma vida pautada eloquentemente nas extremidades centrais do Evangelho de Jesus, abraçando e vivendo com os desgraçados de sua cidade, constrangendo o poder religioso de seu tempo, levando-o a refletir sobre a necessidade de uma Igreja para os pobres, com os pobres e solidária com a vida planetária - irmã terra, irmão sol, irmã lua, irmão fogo, irmã água, irmão lobo, irmão pássaro... Um Francisco  que, ao renunciar sua riqueza, questionou o estilo de vida da juventude burguesa, que buscava reconhecimento e glória  após guerrear em campos de batalhas nas cruzadas. Para estes, o Jovem de Assis indicou valores humanos preciosos, contidos na simplicidade e na liberdade dos desvalidos. Podemos dizer que ele decifrou e incorporou a oração do Mestre: "Eu te louvo, Pai, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos (Mt 11,25-30)". Poucos encarnaram esta compressão da fé. Como nos lembra Leonardo Boff:, ele quis ser, e foi, o  'novellus pazzus'  um novo louco: pelo Cristo Pobre...Há quem o chame de o 'ultimo cristão' ou o 'primeiro depois do Único', quer dizer, de Jesus Cristo".

- Por onde andam os loucos, alá Francisco, nestes tempos?

Francisco, ao encontrar o sentido profundo da vida, se lançou pelas estradas de Assis, transbordando de amor. E por este motivo, como canta o padre Zezinho, "não ficou muito tempo sozinho, gente nova o seguiu com fervor". E eis uma das questões cruciais neste momento histórico: onde encontraremos essa gente nova e fervorosa? Bom, ao tentar responder, declinando o olhar para a imagem de Francisco e o que ele significou e significa, perceberemos logo de cara que estes "fervorosos" estão atualmente entrando em extinção no nosso Clero e também no nosso laicato, de modo que ainda deveremos cantar por muito tempo "a esperança e o desejo  de topar com Francisco de Assis: calça lee, pé no chão, mundo novo e mil ideias de renovação". Não que se deseje retornar o estilo franciscano da época, mas, sim, transportar para o presente seus valores fundantes, para ressignificar o conteúdo da fé de quem o tem como fonte de inspiração, colocando-a na rota dos tempos, iluminando a vida e abrindo espaços de diálogos para superar os desafios da modernidade, que não são poucos e nem de fácil compreensão. Urge então a necessidade de se reavivar a audácia franciscana, que ajudou a revolucionar a Igreja no decorrer da história.

Agora, obstante a gama de complicações, completando o drama, encontraremos ainda, em acelerada movimentação, uma ação de redução da memória do Pai Seráfico, naquilo que lhe foi mais relevante: a fidelidade incondicional ao seguimento de Jesus na opção preferencial pelos pobres. E é oportuno dizer que ele não apenas optou pelos pobres, mas assumiu rigorosamente a identidade de pobre. Exerceu o cristianismo de forma matrimonial com a pobreza. Desta forma, é forte e triste de se ver a deturpação do profetismo radical de Francisco de Assis, condicionado, em muitos espaços, tão somente à práticas de piedade popular, sem tocar nos reais problemas dos pobres e injustiçados no mundo moderno: fome, desemprego, falta de moradia, falta de água, drogas, violências, intolerâncias etc. São questões que precisam ser tocadas com práticas de misericórdia, mas que parecem engessadas pelo clero e pelo laicato preguiçoso, medroso, acanhado, omisso e até mesmo, em muitos casos, coniventes com as estruturas de morte existentes na sociedade. Tipo: "bandido bom é bandido morto, redução da maioridade penal, cura gay, exploração dos trabalhadores dentre outras temas discutidas na esteira social.

Lamentavelmente, por mais que se diga o contrário e se constate raras exerções, a linha de prioridade da conjuntura eclesial é também constituída pela vaidade, o luxo, a soberba, a intransigência o sentimento de poder e um moralismo impiedoso, que condena especialmente os pobres a quem Francisco  compreendeu com alma e com a fé. É como se o "vai, reconstrói a minha Igreja", escutado por Francisco,  tivesse ganho outra conotação: "vai, e condena os pobres de minha Igreja".

As celebrações de massa apresentam a fé do povo no Deus do Santo, mas também a pobreza de uma liturgia sem espaço para a vida sofrida do povo, transformada em eventos festivos - como diz a letra do Salmo do Cristão de Saco Cheio: "uma missa festival". Cabe aqui lembrar um dos mais valiosos documentos da Igreja, concebido no Vaticano II,  a Constituição Pastoral Gaudium Et Spes: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração".  

-Rezamos com Francisco as angústias e as alegrias do povo?

Não! Definitivamente estamos numa crise de referências. Muitos dos nossos líderes religiosos não nos lembram a figura de Francisco de Assis, e se não lembram é por que certamente Francisco não é para eles referência de vida e de seguimento ao Evangelho.

Objetivamente precisamos retornar ao caminho da Porciúncula, para nos fortalecermos de sua lógica acolhedora e fraterna, pois,  rezar com Francisco e não assumir suas causas é fazer teatro religioso, é renegar os motivos  pelos quais ele entregou sua juventude. Celebrar sua memória é torná-lo vivo na nossa prática de fé, atuante na comunidade.

Carlos Jardel  

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