segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Novas revelações reforçam falhas na operação policial em Milagres

Após dez dias da tragédia que chocou o País, o Diário do Nordeste publica, com exclusividade, informações inéditas sobre o que aconteceu em Milagres, onde 14 pessoas foram mortas, sendo seis reféns. A apuração, com fontes sob sigilo que acompanham o caso, dá mais indícios sobre a morte dos reféns.

"Ai, meu Deus, ai meu Deus". Quando abriu a funerária, Jacinta, acostumada a ver gente morta, mas enquadrada num caixão com flores, espantou-se com a cena do lado de fora. Não era nem a metade das poças de sangue espalhadas ali. Às 5h30 da manhã, quando teve coragem de sair da loja em que dava plantão, deu cor ao que na madrugada era somente som: viu o que muitos espiavam pelas frestas de casa, mas já faziam às 2h15: a cena de guerra.


O olhar emoldurado pela veneziana permitia apenas um recorte da tragédia. Ou crimes: sequestro, tentativa de roubo e uma sequência de mortes cujos responsáveis depende de quem aponta. Mas a mira não tem muitos lados.

O que ela não viu, mas algumas câmeras, sim, mostra um massacre: cinco pessoas da mesma família, todas de Pernambuco, assassinadas com os corpos dispostos ao lado do Bradesco, descendo pela rua José Esmeraldo da Silva, sob a falsa proteção de um poste cravejado com o calibre da munição que os perseguia. Elas não estavam empilhadas, mas tombadas na calçada. Tentavam fugir, mas eram escudo para os bandidos. Para isso que foram sequestradas. Quem matou os reféns estava posicionado muitos metros à frente do Bradesco, que já tinha várias dinamites plantadas na calçada. O bando repetiria o feito de Abaré (BA), um mês antes.

Na esquina diagonal, cerca de oito metros distante dos reféns, tomba na calçada da Farmácia Santa Cecília um dos assaltantes. Um segundo suspeito, que tentaria se esconder atrás da L 200 Triton vinho, carregada com vários equipamentos, roubada dias antes para o assalto, vê o avanço policial e corre na rua Padre Misael Gomes. Tomba no meio da via, em frente à Igreja Universal.

A câmera da lanchonete Milk Shake, bem ao lado, registraria tudo. As imagens seriam apagadas, por ordem de policiais militares, ao amanhecer do dia, de acordo com uma fonte ouvida pela reportagem. E assim foi feito no mercantil Burundanga e nas farmácias Santa Cecília e Coelho. Horas depois, os discos dos computadores seriam recolhidos pela Polícia Civil, que tinha ficado de fora da operação. Todo "delete" deixa rastros. Os de gente eram as poças de sangue e restos de massa encefálica no chão. Um dos adolescentes, Vinícius ou Gustavo, sofreu um tiro na cabeça que levantou parte do crânio.

Bandidos na mira

Longe das principais câmeras, mas ainda no quadrante do centro que tem os lados divididos com a Prefeitura de frente para o Bradesco e o Banco do Brasil, de frente para as farmácias, outros dois assaltantes encontram a morte. Um sobe a calçada da Prefeitura e tomba entre dois canteiros de plantas. A Polícia, melhor posicionada no centro da via pública, ainda alcança outro. Um dos tiros, também de grosso calibre, percorre meia quadra, arranca um pedaço do poste de sinalização e percorre o tronco do pé de acácia na calçada de uma casa. O bandido cai sentado e assim fica até ser recolhido, como foram todos os corpos.

Mesmo que tivesse aparecido na cidade dias antes para conhecer as vias de acesso e fuga, o bando se viu cercado. Monitorando os assaltantes havia dias, a Polícia já estava posicionada por trás da Prefeitura e em ruas paralelas, de modo que chegasse toda de um mesmo lado.

Pela tangente

Durante o tiroteio, um dos assaltantes, Robson José dos Santos, armado de pistola e fuzil, consegue escapar por uma rua lateral, até se esconder na casa de Dona 'Dinda', àquela altura acordada como tantos.

Ao menos dois conseguiram fugir na Ford Ranger pertencente ao refém Cícero Tenório. Saíram reto pela rua lateral do Bradesco. Viraram à esquerda, em seguida à direita, por trás da Igreja de Nossa Senhora dos Milagres. Foram tão reto que arrombaram um portão que dá para uma várzea, num terreno ocupado por gado. Era preciso escolher um dos lados, e ao virar à direita são surpreendidos com lama numa estrada que não existe. O veículo atola no barreiro e é o jeito fugir a pé. Desaparecem no matagal, mas não por muito tempo, até visitar casas pela manhã.

Diário do Nordeste

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