sábado, 3 de novembro de 2018

11 meses antes do ‘Sim’ a Bolsonaro e 7 antes de prender Lula, disse Moro: política poria em dúvida integridade de seu trabalho. Então pôs!


No dia 27 de novembro do ano passado, o ainda juiz Sérgio Moro, futuro superministro do governo Bolsonaro — com mais poderes do que concentrou o antigo SNI no seu auge —, participou do “Fórum Veja” e foi entrevistado pela jornalista Thaís Oyama. Estamos falando de um evento ocorrido há 11 meses. Thaís fez a pergunta que estava em todas as cabeças: ele pensava ou não em exercer um cargo político? Ainda que o contexto sugira que se está falando de função eletiva — e a resposta do então juiz deixa claro que ele próprio tinha em mente, em particular, a Presidência da República —, ouve-se uma negativa peremptória. Ele descarta “qualquer espécie de cargo político” no presente ou no futuro. Por que não? O homem deixa claro: porque isso “poderia colocar em dúvida a integridade” do seu trabalho. Assistam ao vídeo. Eu transcrevo a fala em seguida e comento na sequência.

TRANSCRIÇÃO

MORO: O que eu coloco da minha inviabilidade de uma postulação dessa espécie — eu acho até que um magistrado, um ex-magistrado, pode ser um bom político, pode ser um bom ex-presidente (sic) — , mas eu entendo que, no momento, e eu não vejo isso também no futuro, NÃO SERIA APROPRIADO DE MINHA PARTE POSTULAR QUALQUER ESPÉCIE DE CARGO POLÍTICO PORQUE ISSO PODERIA, VAMOS DIZER ASSIM, COLOCAR EM DÚVIDA A INTEGRIDADE DO TRABALHO QUE EU FIZ ATÉ O PRESENTE MOMENTO”. ENTÃO EU ACHO QUE NÃO SERIA APROPRIADO. Eu acho que o Brasil precisa de fortalecimento das instituições; acho que o Brasil precisa de fortalecimento daquilo que nós chamamos de ‘rule of law’, ou de ‘governo de leis’, e uma candidatura, por exemplo, minha seria inapropriada para esse propósito…

TRAÍS: Neste momento?

MORO: É, mas no futuro também. No futuro, não vejo isso ocorrendo, mas, especialmente neste momento, seria absolutamente inapropriado”.

Retomo

Bem, as palavras fazem sentido, não? Onze meses depois daquela entrevista e sete meses depois de mandar prender Lula, Moro aceita o cargo de superministro da Justiça do governo Bolsonaro. Assim, levando a sério o que disse, há de se concluir:

– isso coloca em dúvida a integridade do trabalho que fez;
– a aceitação é “absolutamente inapropriada”;
– a tese de um “governo de leis” sai enfraquecida.

Quando decisões do então ex-juiz Moro chegarem aos tribunais superiores, os senhores magistrados certamente terão de levar em conta aquilo que ele próprio dizia sobre aceitar um cargo político. E, convenham,  aceitou o mais político de todos eles, certo?

Não custa lembrar que, durante a campanha eleitoral, Moro se encontrou com Paulo Guedes, um dos homens fortes de Bolsonaro, e tratou de sua eventual ida para o governo. Enquanto isso, tomava decisões como juiz.

Blog do Reinaldo Azevedo

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