segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Artigo: A guerra dos deuses

Segue o artigo do Padre Ermanno Allegri publicado no Jornal O POVO. Ele é Coajudor na paróquia de São João Paulo II em Fortaleza onde é membro da articulação do Movimento Fé e Política

"Nas ditaduras que se sucedem na América Latina, é comum encontrar gente de igreja apoiando e até colaborando com os tiranos. Ao mesmo tempo, há mártires, seguidores de Jesus Cristo, torturados e assassinados pelos mesmos tiranos. Conhecemos dom Oscar Romero, de El Salvador, santificado no último dia 14; dom Enrique Angelelli, argentino, santificado em junho passado; dom José Girardi, da Guatemala.

Santos de um lado e religiosos apoiando ditadores do outro. É a guerra dos deuses já presente na bíblia como na guerra do profeta Elias contra os “450 profetas de Baal que comem à mesa da rainha Jezabel” (1 Reis 18). Esta guerra dos deuses está se desenrolando debaixo do nosso nariz nesta eleição: dois projetos antagônicos para o Brasil, cada projeto tem seu deus. Mas que deus é esse?

Um é o deus dos faraós, o deus dos templos ricos, da casa grande de ontem e de hoje. Esse deus não existe. É criado a partir do interesse do dinheiro. O dinheiro cria deus à sua imagem e semelhança, para seu uso e consumo. É um deus/mentira, sustentado também por igrejas e grupos ‘espiritualistas’. É o Baal de hoje que promete prosperidade e mesa farta aos endinheirados que fabricam ódio de classe manipulando sistematicamente as consciências.

Jesus disse: “O diabo, vosso pai, é mentiroso e pai da mentira”. Há gente piedosa – leigos e clero – que se identifica com esse projeto. A troco de quê? Poder, riqueza, prestígio? Jesus livrou-se dessas tentações (Lucas 4). Até a sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi alvo de um ataque covarde desses seguidores de Baal.  O outro Deus é o Deus vivo, o deus dos profetas que liberta os escravos e levanta o pobre. É o Pai de Jesus Cristo, o Pai das vítimas e dos torturados, o Pai das periferias geográficas e existenciais: Deus amor, amante da vida, que nos fez à sua imagem e semelhança para construir uma sociedade mais humana, a partir dos excluídos e marginalizados.

Nesta linha, foi criada a Frente Democrática, um projeto que quer a volta da democracia no País. Não espalha ódio e violência, mas, a partir da calamidade em que o País foi afundado pelos golpistas, apresenta um plano para reconstruir a esperança. Esse projeto seria o “salvador da pátria”? Nesse momento, sim. O outro irá marcar um tempo de crueldades que muitos países já viveram nas ditaduras fascistas. Vamos escolher a paz e a esperança".
 

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