sábado, 2 de dezembro de 2017

Sobre ideologa de gênero

por João Carlos Almeida (Doutor em Educação – USP)

Ouvi uma história muito estranha que ilustra bem a situação que estamos vivendo. Chega a dar nó no pensamento. 

A garota de 14 anos vai ao médico e diz: 

- Doutor, resolvi começar a minha transformação. Quero ser menino. 

O médico, sem qualquer pudor ou preconceito, de modo “neutro” e politicamente correto, faz as perguntas de praxe: 

- Está convencida disso? Tem autorização de seus pais? Passou por acompanhamento psicológico? A resposta da menina é sempre a mesma: “Sim”. 

O doutor passa então para os procedimentos. Mostra quais seriam os caminhos, medicamentos, hormônios e, finalmente, cirurgias, para chegar à desejada transformação. Ainda avança dizendo que depois de tudo isso ela, no caso ele (!), poderia entrar com o pedido para mudança do seu nome. A garota sorri satisfeita. Quase no final da consulta o médico lembra que esqueceu de fazer uma pergunta fundamental:

- Escuta, espere um pouco; por quê mesmo você quer virar homem? Você é lésbica? Sente atração por mulheres? 

A garota responde de modo rápido:

- Não doutor. Eu gosto de homem!
O médico não entende mais nada. 
- Como assim? Se você gosta de homem, por que quer virar homem?
A garota responde de modo absolutamente natural:
- É que eu quero ser gay!

Esse relato pode ser até fantasioso e surreal. Mas revela uma motivação que está na raiz da atual crise de identidade de gênero: a ideologia. Já houve que cantasse de modo tristemente poético: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. A palavra vem da conjunção de “ideia” com “logos”. Mais do que estudo das ideias, ideologia significa um sistema complexo de conceitos, ideias e ideais que dá coesão e motivação a um grupo social. Diversos filósofos, como Marx, perceberam que os movimentos sociais utilizam um sistema de ideias dominantes para motivar um grupo social para um determinado comportamento.

Vista à distância do espaço ou do tempo a ideologia pode parecer absurda. Olhamos para o Estado Islâmico, aparentemente tão distante, e nos perguntamos: como tantos jovens podem seguir esta loucura? Homens-bomba sacrificam a própria vida e a vida dos outros por crenças e valores que lhes parecem absolutamente fundamentais. Este tipo de ideologia fundamentalista costuma manipular a “boa fé” religiosa das pessoas para promover um tipo de “guerra santa”. 

Se voltássemos nosso olhar para a década de 1930, há quase noventa anos, encontraríamos os profetas de estados absolutistas mantidos por ideologias como o fascismo na Itália de Mussolini e o nazismo de Hitler na Alemanha. O resultado foi um mundo destruído pela segunda guerra mundial e ao menos quinze milhões de pessoas mortas em extermínios ideológicos. Os judeus foram uma das categorias mais atacadas. Mas a ideologia nazista destilou seu ódio também contra os homossexuais; depois, todos os que não se pareciam da raça ariana foram perseguidos. O julgamento da história foi severo com Hitler e suas loucuras são uma vergonha para a humanidade. A ideologia nazista foi sumariamente condenada mas, no seu tempo, centenas, milhares de jovens se deixaram contagiar por ela. Os argumentos eram fortes e pareciam irrefutáveis. 

Hoje estamos mergulhados na ideologia de gênero. Ela reina soberana nas novelas; é defendida na arte como “liberdade de expressão”; faz parte do quotidiano de muitos professores que teimam em ensiná-la aos seus alunos desde a mais tenra idade. E o que ela diz? Seu código de ideias é muito simples, quase simplório. A ideologia de gênero tem apenas um dogma: Não nascemos homens e mulheres. Nascemos neutros. O gênero é uma opção pessoal desenvolvido como uma construção social. A partir dessa premissa passa a ser autoritário e cruel tratar uma menina como menina logo ao nascer. O mesmo com um menino. Deve-se deixar ele optar livremente e socialmente construir a sua identidade sexual. Simples assim. 

É claro que existem pessoas com tendências homossexuais. Nem a medicina nem a psicologia sabem com certeza a causa determinante desse fenômeno. Existem mil teorias. Mas o certo é que precisamos respeitar quem tem afetos não convencionais. Não é uma opção, mas uma orientação sexual. A Igreja Católica prega o respeito a estas pessoas. Já houve um tempo, não distante, que esta categoria social era o alvo preferido dos humoristas de plantão. Hoje a homofobia é um crime. Mas será que a ideologia de gênero não promove uma heterofobia, igualmente criminosa?

Mas de onde teria surgido esta ideologia da construção do próprio gênero? Não é uma filosofia de origem afetivo-sexual. É um dos frutos maduros e quase apodrecidos, do antropocentrismo moderno. A modernidade iniciada simbolicamente com a Revolução Francesa em 1789, reivindicou a centralidade absoluta do ser humano. Sabemos que o ser humano já foi geocêntrico, considerando a harmonia com a natureza o ideal supremo. A modernidade foi colocando o homem sempre mais no centro. Todo teocentrismo – colocar Deus no centro -  foi abominado. Eclesiocentrismo - Igreja no centro – nem pensar. Na moral foram descartadas todas as fórmulas heterônomas – que colocam a lei externa como determinante. O ser humano deveria praticar a “autonomia total”. Esta tendência foi crescendo até chegar ao gênio de Nietzche que convocou o ser humano a ser um super-homem, um semideus. Nesta dinâmica de onipotência humana faltava um detalhe: a autodeterminação de gênero. Quem é Deus ou a natureza, ou mesmo a família para me dizer se devo ser homem ou mulher? Cada um deve escolher. Este é o dogma da pós-modernidade, que não é a superação mas o superlativo da modernidade. 

Alguns cientistas de plantão já perceberam a perigosa falácia desta ideologia. Gritam que brincar de Deus pode ser tão perigoso quando montar uma usina atômica na Praça da Sé, em São Paulo. Resta saber se serão ouvidos.

Vamos fazer um exercício. Passaram-se 60 anos. Estamos em 2077. Aquela menina do início deste artigo agora está com 74 anos. Aos 20 anos ela havia assumido total identidade masculina. Estava feliz com sua barba hormonal. Aos 23 retirou os seios. Ficava feliz por desfilar sem camisa na praia e ser chamada pelo nome masculino que conseguiu colocar em sua carteira de identidade. Mas, como dizia meu falecido pai, Deus perdoa sempre, nós perdoamos às vezes, mas a natureza não perdoa nunca. Aos 27 anos ela começou a sentir os fortes efeitos colaterais em seu corpo e o coração começou a pedir um afeto diferente. Resumo da ópera: casou aos 30 anos e começou um tratamento reverso para engravidar. Os gritos da natureza eram mais fortes que a ideologia que a moveu para a loucura de gênero. Conseguiu ser mãe de gêmeos. Teve problemas na gestação. Isto se refletiu nas crianças. O resto da história você mesmo pode construir. Aos 74 anos é vó e olha para seus netos muçulmanos com perplexidade. Ela ainda permanece cristã. Não existe mais ideologia de gênero. Costumam chamar esta moda do início do século 21 como “nazismo de gênero”. A humanidade, agora às portas do século 22 é majoritariamente muçulmana. O Islamismo vai dominando os países, um a um, e impondo no mínimo sua cultura. A idosa garota olha para sua história e pensa: ah se eu pudesse voltar no tempo...

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