terça-feira, 24 de outubro de 2017

Thiago: Nota de repúdio da CNBB (Ceará) "reforça o falso moralismo". A hipocrisia regada à nutuella!

"Os seminários estão repletos de homossexuais, as casas religiosas estão repletas de lésbicas e isso não é um problema"



Esse não é um texto comparativo de uma das modinhas da internet: ou se é nutella ou raiz. Acho a frase excludente e motivadora de mais divisão e preconceito. Esse é um texto sobre a Igreja de Roma, sobre parte dela na verdade, e sobre sua prática milenar de apontar “falhas” e esquecer-se de olhar para os seus erros internos.

Essa semana os bispos do Ceará, reunidos no Conselho Episcopal Regional, lançaram uma nota de repúdio reforçando o falso moralismo que tem sido prática frequente nesse país. Nem parece que vivemos em 2017, e parece que parte significativa da Igreja faz questão de estar surda à voz de Francisco, ou interpretá-la de forma que favoreça aos seus caprichos. Vamos a um trecho da nota:

“Seríamos ingênuos ao pensar que esses últimos episódios (Exposição Queermuseu no Santander Cultural em Porto Alegre – RS, o artista nu que rala a imagem de Nossa Senhora Aparecida durante ‘perfomance’, em Brasília), dada à sua natureza e à evidência dos seus objetivos, não são apenas verdadeiros crimes de vilipêndio, o que já seria muito grave, pois o próprio Código penal os tipifica assim (Artigo 208). Trata-se de um verdadeiro projeto estrutural, profundo e nefasto, de desmonte dos nossos mais preciosos valores humanos e cristãos, através da banalização do matrimônio, da ideologia de gênero, da legalização do aborto, da liberação das drogas, da relativização dos valores morais nascidos do Evangelho e ensinados pelo Magistério da Igreja.”


Enquanto a nota roda o Estado, com a orientação de ser lida em todos os espaços eclesiais, sobretudo nos cultos dominicais, uma parte do clero se reúne na Arquidiocese de Fortaleza, que tem mais de 145 paróquias e mais de 400 padres, numa manhã de sábado, regada a muita comida e nutella. Sim, aquele creme de avelã, bem caro por sinal, que nem de longe, no momento em que vivemos, passa perto do carrinho de compras de supermercado da grande massa atendida pelas paróquias de Fortaleza. É nutella no café da manhã, mas são também suculentos ovos de chocolate na páscoa, presentinhos e casa grande com piscina e churrasco nos momentos comemorativos. Regalias pagas com o dizimo suado das pessoas, com as espórtulas caras cobradas pelos sacramentos, com o aluguel das igrejas para os casamentos, com as moedinhas da gente pobre da periferia que não deposita só a oferta, mas a expectativa/esperança/fé...

Enquanto “a Igreja não prega nem defende discriminação ou preconceito de qualquer natureza”, como afirma a nota e diz que o que acontece no Brasil é “profundo e nefasto”, uma realidade de “desmonte dos nossos mais preciosos valores humanos e cristãos”, fecha os olhos para os valores absurdos pagos aos presbíteros diocesanos (em Fortaleza um padre recebe 4 salários mínimos por mês), para os abusos de autoridade dos seus padres, para uma igreja com pastoral doente em que as pessoas estão cansadas, depressivas, e precisam de ajuda para além do campo espiritual; as pessoas não aguentam mais serem tratadas e enxotadas pelo clero como empregados sem direitos garantidos, mas do que nunca como escravos, com a volta legal da escravidão no país, que diga-se de passagem nunca esteve ausente; são lideranças desoladas que só reproduzem umas nas outras o peso de uma igreja que precisa se converter. Conversão, nesse caso, não é se abrir a banalização da fé, isso muitos grupos já fazem dentro da própria Igreja, mas de forma urgente, começar a construir espaços mais leves, uma Igreja mais em saída e menos fechada em si mesma.

Os bispos do Ceará criticam “O incentivo, patrocínio, promoção e “doutrinação” em massa, realizada diuturnamente em novelas, programas de “entretenimento” e da imposição ilegal, por órgãos governamentais e organizações não-governamentais, muitas destas de âmbito internacional”, mas esquecem da imoralidade criminosa de alguns de seus clérigos com a prática da pedofilia e do sexo livre tão criticados e que não é novidade já há muito tempo. Spotlight (Spotlight - Segredos Revelados, filme de 2015) não é apenas uma realidade estadunidense, ela perpassa e está entranhada na Igreja. Isso sem falar nos/as diversos/as adolescentes e jovens literalmente expulsos/as dos espaços eclesiais por conta da sua orientação de gênero não condizente com a fé cristã. Os seminários estão repletos de homossexuais, as casas religiosas estão repletas de lésbicas e isso não é um problema. A forma como se trata a orientação nesses espaços, o jeito como chegam esses/as jovens, a falta de acompanhamento personalizado e qualificado e a prática insana de transformar as pessoas em máquinas que não têm desejos é que é um mal a ser combatido. Enquanto a preocupação for por números e não pela vida das pessoas essa realidade não muda.

O café da manhã é com nutella, mas enquanto isso, muitos cristãos católicos romanos, para citar pelo menos as pessoas que estão mais próximas, não têm sequer pão.
Ainda bem que há esperança!

Oxalá, Francisco se multiplique em Marias, Josés, Joanas...

(Thiago Silveira é Jornalista e animador de Comunidade Eclesial de Base e Militante da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Fortaleza-CE).

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