quarta-feira, 23 de agosto de 2017

PADRES CANTORES – QUANDO OS ÍDOLOS CAEM E QUEBRAM

O padre entre o poder e  a patologia:  todo endeusamento tem prazo de validade.


Questão fundamental: Como conciliar poder e pathos num modelo/perfil de clero altamente narcisista e triunfalista?

Padre Geraldo Natalino (Gegê)*

As patologias confessadas publicamente pelos dois ícones da evangelização midiática católica (padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo) de algum modo põem em xeque uma plataforma evangelizadora erguida com a pretensão unilateralista de se afirmar o “trigo” e se extirpar o “joio”. Dizendo de outro modo, o sistema evangelizador do modelo “Canção Nova” (hegemonicamente branco e belo, segundo padrão de beleza dominante do Brasil racista), não obstante​ indiscutíveis riquezas na ordem da propagação do Evangelho, traz consigo um “calcanhar de Aquiles”: o humano. Esquece que o ser humano não é anjo, mas vaso de argila, barro, um ser sempre incompleto, carente e claudicante. Acredito que tais confissões sirvam como um alerta para aqueles que endeusam líderes religiosos e sobretudo, para líderes religiosos que se endeusam. Nesse horizonte, a produção e proliferação de “cercos de Jericó”, “missas de cura e libertação”, “missas da vitória” etc. são, mormente, meios através dos quais ministros sagrados e seus seguidores (as) exibem, com glamour e ideal de onipotência: força, autoridade, majestade e fama. O caminho fica aberto para toda sorte de idolatria e culto à personalidade. Escreve oportunamente a teóloga Maria Clara Bingemer:

“O culto à personalidade: que cultua pessoas concretas, mesmo que sejam boas e beneméritas. A pessoa em questão é despojada de sua humanidade real e convertida em um objeto de consumo, cultuada como ídolo, consumida, e descartada quando já tiver sido suficientemente sugada e dela não restar senão o bagaço.

Outra pessoa então substituirá o ídolo deposto em seu pedestal, lançando as bases para um novo culto, presidido por uma nova divindade. Onde há esse tipo de religiosidade idolátrica, as pessoas não são livres. Projetam seus desejos de absoluto em outras pessoas falíveis e frágeis, que perdem o papel positivo que poderiam exercer enquanto mediadoras para se converterem em absolutos incontestáveis.”

Psicologicamente, o Inconsciente aparece e destrona egos inflados; a vida mostra que nenhum sistema religioso é capaz de blindar o humano.

Diante dos pantanais da alma nenhuma casta religiosa pode se apresentar como imune ou acima dos grandes dilemas da existência. O psicólogo suíço Carl Gustav Jung trabalha com a noção de enantiodromia referindo-se a um trabalho do Inconsciente capaz de destronar egos inflados e lançá-los no extremo oposto de suas pretensões. Desta feita, o suposto herói invencível da fé pode, assustadoramente, se ver tremendo de medo debaixo da cama a reclamar proteções e cuidados maternos. Quase sempre a santidade exacerbada que propagamos esconde os limites que possuímos; o heroísmo que esbanjamos camufla as fragilidades que não aceitamos em nós mesmos. A renúncia desconcertante do então papa Bento XVI deveria servir como marco referencial para uma Igreja que se sabe atravessada pela graça, mas também marcada pelos limites humanos, desde o papa ao último leigo ou leiga.

Na acepção junguiana (e também na antropologia cristã), o ser humano é um complexo de opostos. É simultaneamente, sapiens e demens, doutor e louco, são e enfermo, santo e pecador, grande e miserável… E não há remédio para esse dilema! Hoje, muitas dioceses Brasil a fora, na contramão dos caminhos abertos pelo Concílio Vaticano II e pelos ensinamentos de envergadura do papa Francisco, insistem obstinadamente na produção em série de um clero formado com uma pífia Teologia e uma arrogante espiritualidade. São padres novos, psicologicamente pueris, moralmente puritanos/maniqueístas e religiosamente triunfalistas com extremado ideal beligerante.

Penso, pois, que qualquer sistema religioso que se assente na arrogância ou no afã de tudo saber ou poder, por mais encantador que seja, tem um prazo de validade, pois a fé em Deus não nos faz deuses. Os gregos chamam de hybris o descomedimento ou ultrapassamento dos limites. Hybris é o pecado clássico dos que querem (consciente ou inconscientemente) ser como Deus. Às vezes as enfermidades surgem para lembrar-nos quem somos e, assim, afirmar que independente de nossas qualidades ou virtudes, fazemos, todos e todas, parte de uma mesma e única humanidade.

Às vezes as enfermidades aparecem e, mais que remédios, vêm cobrar das humanas criaturas e, sobretudo dos sistemas eclesiásticos, um pouco mais de humildade. A propósito, reza, ensina e adverte o adágio popular: “QUANTO MAIOR O COQUEIRO, MAIOR O TOMBO”.

Não sem razão disse o Apóstolo Pedro quando Cornélio se ajoelhou e se curvou diante dele: “Levante-se, pois sou apenas um homem como você”.

Lembra Jung: “Só o ferido cura”.




Nenhum comentário: