quarta-feira, 20 de julho de 2016

É DEVER DO CRISTÃO SE ENVOLVER NA POLITICA

"Críticas e incompreensões são frutos da separação que indevidamente se faz entre fé e vida".

A notícia de que algumas pessoas com fortes ligações com Igrejas cristãs disputarão pleitos eleitorais traz marcas de esperança em torno do ideal de que a política seja renovada à luz da vida plena anunciada por Jesus Cristo. Porém, surgem também críticas e incompreensões, fruto da separação que indevidamente se faz entre fé e vida. Por vezes, o Evangelho de Cristo é transformado em uma espiritualidade superficial, sem o esperado compromisso com a efetivação dos valores do Reino de Deus, como a justiça, a fraternidade, o bem comum e o serviço.

A fé cristã, conforme o chamado de cada um, deve motivar à militância política, pautada por uma atuação responsável e madura. A Igreja Católica não tem partido e nem prioriza grupo político algum. Porém, assim como muitas outras igrejas cristãs, recomenda a participação dos cristãos na política, com a reta intenção de impregnar a vida secular com os valores evangélicos.
Quer comprovações sobre esse fato? Veja:

- Em audiência no dia 07/06/2016, o nosso querido Papa Francisco declarou: “Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão... Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum... Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se implicaram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas... mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão».

- Bispos da CNBB, após estarem reunidos em Assembleia, deram esta declaração em 13/04/2016: “Os cristãos leigos e leigas não podem ‘abdicar da participação na política’. A eles cabe, de maneira singular, a exigência do Evangelho de construir o bem comum na perspectiva do Reino de Deus. Contribui para isso a participação consciente no processo eleitoral, escolhendo e votando em candidatos honestos e competentes. Associando fé e vida, a cidadania não se esgota no direito-dever de votar, mas se dá também no acompanhamento do mandato dos eleitos.”

- Grandes exemplos de participação política da Igreja são as campanhas da fraternidade, as quais, ano a ano, trazem temas de reflexão política, mostrando que não podemos separar política e fé. Nesse ano, a campanha tratou do tema SANEAMENTO BÁSICO. Infelizmente, a formação deficiente faz com que os católicos saibam pouco sobre a Campanha da Fraternidade, limitando-a, na maioria das vezes, a uma celebração de abertura no período quaresmal.

A Igreja do Brasil assumiu outrora como uma das dimensões da ação evangelizadora a dimensão sócio-político-transformadora. A justificativa: a fé precisa ser testemunhada em todos os campos, inclusive na vida política. Portanto, a participação na vida política também colabora para encarnar o Evangelho de Jesus Cristo. Como amo meu próximo se não cobro o bom gerenciamento dos recursos públicos na saúde, o que deixa pessoas esperando semanas ou até meses por um procedimento? Como amo meu próximo concretamente se não luto para que os direitos dele sejam respeitados? Como amo meu próximo se o vejo sem saneamento básico, deixando-o à mercê da baixa qualidade de vida, sujeitando-o a diversos problemas de saúde? Como amo meu próximo se não luto por leis que defendam a vida? Tudo isso passa pelas mãos dos políticos, quer seja no Poder Legislativo ou no Poder Executivo.

Se os cristãos leigos não ocuparem esses espaços, lamentavelmente eles serão ocupados por muitos outros que nem sempre terão o compromisso ético, moral e espiritual de promover o bem do próximo, o bem comum. Que o Espírito Santo, luz dos corações, nos oriente na árdua missão de levar Cristo a todos os espaços, sendo seus instrumentos na construção de um mundo mais justo.

Mário Roberto Lima
Professor, Assistente Social, Assessor da RCC, Ministro da Palavra e acadêmico do Curso de Direito.

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