sexta-feira, 13 de maio de 2016

AUTOMOVA-SE

No elevador da FA7, encontro fixado o inusitado cartaz: “Já pensou em pegar a escada, para subir apenas um andar?” Ah, o que um aumento no preço da energia não faz! Ainda assim, vejo a maioria dos estudantes jovens e bem nutridos viajar de ascensor (vai ver que precisam subir mais de um andar, né?). Quanto a mim, tenho preferido a rampa, subindo nela até o 5º nível (adoooro subir uma rampa!). Confesso, porém, que uma fantasia perversa tem invadido a minha mente: e se essa onda pegasse? E se não fosse apenas uma alternativa emergencial (a crise...!), mas mudança de atitude para valer? E se voltássemos a nos conduzir, ao invés de sermos conduzidos? Eis o tema: automobilismo humano.

Admitamo-lo: temos sido trouxas. O uso indiscriminado do controle remoto da TV, do automóvel, do multiprocessador, do elevador, da escova de dente elétrica e de outras geringonças infernais tem nos proporcionado uma vida cômoda, poupando-nos uma enorme quantidade de calorias que, no entanto, somos obrigados a queimar – caso não queiramos morrer cedo! – em corridas, caminhadas e academias caras. Não seria mais sensato locomover-se (automover-se!) a pé ou de bicicleta até os destinos mais próximos, em vez de deixar-se levar por uma máquina poluente e energeticamente dispendiosa? Sem falar do exorbitante preço do estacionamento e do entupimento das vias urbanas...

Entretanto, não falemos de banalidades como saúde, gastos financeiros ou engarrafamentos – argumentos racionais costumam ter pouco poder de persuasão. Falemos, antes, de prazer – e não na sua vertente masoquista. Do prazer de bater os ovos do bolo com a mão (ainda hoje tento alcançar a perícia da minha mãe!). Da emoção de ficar de pé no ônibus por opção, testando sua capacidade de equilíbrio. Da satisfação de empurrar seu próprio carro-de-mão, de saber manusear com desenvoltura a enxada ao limpar o mato em frente de casa, de sentir os seus músculos se exercitando. Da sensação de triunfo ao ter chegado, indo pela escada, antes dos amigos que foram de elevador. Do prazer de automover-se, automobilizar-se. Do orgulho de ter recuperado a iniciativa, de ter deixado de ser um consumidor automático e trouxa.

“Crítico” mesmo é o caráter parasitário do nosso modo de vida. Carecemos não só de medidas econômicas emergenciais; urge criarmos uma cultura alternativa permanente. Viva, pois, a contracultura do automobilismo humano! Viva a “estrada menos viajada” (Scott Peck)!

Carlo Tursi

tursicarlo@gmail.com
Professor teólogo

(Publicado no Jornal O Povo)

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